0# CAPA 12.8.15

VEJA
www.veja.com.br
Editora ABRIL
edio 2438 - ano 48  n 32
12 de agosto de 2015

[descrio da imagem: as mos de uma mulher. Com a mo esquerda segura uma panela, pelo cabo, e com a direita segura uma colher de pau, encostada j no fundo externo da panela.]
O BRASIL PEDE SOCORRO
ESPECIAL * A MENSAGEM DO PANELAO * O REAL DERRETE * O FUTURO DAS DELAES * O FIM DO CICLO POPULISTA E CORRUPTO

[outros ttulos: parte superior da capa]
O FUTURO AGORA
O skate flutuante igual ao dos filmes existe, mas apenas como prottipo.

O "NDICE UBER"
Quanto mais corrupto e mais burocrtico um pas, mais provvel  a rejeio ao aplicativo que desafia os txis.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# INTERNACIONAL
5# GERAL
6# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 12.8.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  O UBER E A PS-IDEOLOGIA
     1#3 ENTREVISTA  ACIO NEVES  O PT ATRASOU O BRASIL EM 20 ANOS
     1#4 MALSON DA NBREGA  COMO O PT TRAVOU O CRESCIMENTO DO BRASIL
     1#5 LEITOR
     1#6 BLOGOSFERA

1#1 VEJA.COM
NUNCA E TARDE PARA NAMORAR
A velha-guarda perdeu o medo de procurar amores virtuais. Criado em 2000, o Par Perfeito recebe 450.000 novos inscritos por ms. Em 2009, usurios acima de 40 anos eram apenas 18% do total e hoje j representam 30%. No Coroa Metade, com mais de 80.000 cadastrados, 80% dos visitantes tm entre 40 e 59 anos  os 20% restantes so mais velhos. Reportagem no site de VEJA mostra o que esperam e como se comportam homens e mulheres na maturidade que constroem relacionamentos nascidos na internet. 

A VEZ DO HOMEM-OBJETO
O longa Magic Mike XXL, em cartaz desde a semana passada, no  apenas a continuao de Magic Mike, o filme de Steven Soderbergh que traz um grupo de bonites seminus rebolando para seduzir mulheres. Ele tambm ilustra um novo comportamento entre os homens. "Muitos agora demonstram livremente o seu desejo de ser desejados", diz o escritor britnico Mark Simpson, o criador do termo metrossexual. Ouvido pelo site de VEJA, Simpson est entre os especialistas que explicam essa mudana. 

CRIANAS DEVOLVIDAS
No Brasil, o processo de adoo de uma criana inclui um perodo de adaptao que varia entre as famlias. Durante esse tempo, pais e filhos adotados devem se conhecer e estreitar laos. Algumas vezes, ocorre o pior desfecho possvel: a criana  devolvida. De acordo com o Cadastro Nacional de Adoo (CNA), desde que o registro foi criado, em abril de 2008, 130 crianas passaram por essa experincia traumtica. O nmero pode ser ainda maior, j que nem todas as adoes passam pelo CNA. Reportagem em VEJA.com mostra as consequncias da rejeio e as penalizaes previstas em lei para adultos que desistem da adoo. 

VIROU UMA FRIA
A moda passou, a temperatura caiu, o dinheiro minguou. O que era um negcio promissor no ano passado virou mico em 2015. As paleterias, lojas de picols gourmets que antes atraam filas, hoje brigam para atender uma meia dzia de clientes por dia. H unidades fazendo saldo de picols: de 12 reais por 2,50. A reportagem do site de VEJA percorreu as lojas de So Paulo e mostra por que o negcio virou uma fria. 


1#2 CARTA AO LEITOR  O UBER E A PS-IDEOLOGIA
     Uma reportagem especial desta edio de VEJA sobre o Uber, o aplicativo para celular que coloca motoristas e passageiros diretamente em contato, dedicou-se a comparar as reaes provocadas pela novidade em diferentes pases. A ideia era tentar encontrar algum paralelo entre a aceitao ou a rejeio do Uber e o grau de abertura dos pases. Os jornalistas partiram da premissa de que, quanto mais burocrtico, mais corrupto e mais centralizador na economia fosse o pas, maior resistncia seria oferecida ao funcionamento do Uber. A confirmao da premissa foi bastante consistente  e, sem nenhuma ambio de produzir um trabalho acadmico, os jornalistas montaram o "ndice Uber", uma maneira de visualizar graficamente o inter-relacionamento daqueles fenmenos. 
     Brasil, China e ndia figuram no ndice com as maiores notas indicativas da tendncia de rejeitar a novidade. Realmente, em graus distintos, a chegada do Uber s grandes cidades brasileiras e daqueles pases no tem sido pacfica. No extremo oposto, ficou a Nova Zelndia, um dos pases menos corruptos, menos burocrticos e mais receptivos  iniciativa privada. No se conhece um nico incidente com taxistas nem barreira intransponvel criada pelo Estado para impedir ou atrapalhar o funcionamento do Uber na Nova Zelndia. Um ponto fora da curva foi a Espanha, que, no se destacando negativamente nos rankings mundiais de corrupo, de burocracia ou intervencionismo estatal, baniu o Uber. 
     Mais interessante  ver o Uber como o primeiro fenmeno ps-ideolgico de alcance mundial. Ele no  de esquerda nem de direita.  novo. Quem melhor definiu isso foi o escritor, humorista e roteirista Gregrio Duvivier em seu Twitter: "pessoal acha q ser de esquerda = ser a favor da estatizao de tudo. esquerda = distribuio de poder, nada mais de direita q a mfia do txi". O deputado estadual Edilson Silva, do PSOL de Pernambuco, citou Karl Marx em defesa da novidade e filosofou: "O Uber ser utilizado por seu valor de troca, ou seja, baseado em critrios de produo de bens e servios em escala de massa. Quem oferecer melhor preo e qualidade levar o cliente. Socialismo com liberdade  assim". 


1#3 ENTREVISTA  ACIO NEVES  O PT ATRASOU O BRASIL EM 20 ANOS
O presidente do PSDB diz que o Brasil tem instituies para sair da crise poltica e estrutura para vencer a estagnao econmica, mas nada disso adianta com um governo sem rumo.
PEDRO DIAS LEITE

Acio Neves ainda no decidiu se vai se juntar ao povo nos protestos contra o governo da presidente Dilma Rousseff marcados para o prximo domingo, 16. Essa, no entanto,  uma das poucas dvidas que o senador tem hoje quando o assunto  o governo do PT. Acio est certo de que ser quase impossvel a Dilma Rousseff retomar as condies mnimas de governabilidade. O presidente nacional do PSDB diz que no h dvida de que Dilma e seu antecessor se beneficiaram do maior esquema de corrupo j montado dentro do Estado brasileiro. "Falta apenas a Justia comprovar que ela recebeu dinheiro ilegal na campanha", diz Acio, para quem um eventual processo de impeachment da presidente, se correr dentro dos limites constitucionais, no pode ser chamado de golpe. Diz ele: "Cumprir a legislao  respeitar a democracia". Derrotado nas eleies de outubro, quando obteve 51 milhes de votos, o senador disse no saber quando vir para o PSDB o "chamado para tirar o Brasil da crise gravssima que o PT criou", mas que, no momento em que isso ocorrer, o partido estar pronto para atend-lo. 

O que  pior para o Brasil: trs anos e meio de um governo agnico de Dilma Rousseff ou uma soluo traumtica como o impeachment? 
No vejo como romper esse ciclo perverso de incompetncia e de viso ideolgica arcaica no qual o PT nos mergulhou sem um governo que resgate a confiana da populao. Com o PT, o Brasil perdeu vinte anos de conquistas. A situao do pas  muito grave, para qualquer governo. Mas s um governo que tenha capacidade de dizer a verdade  populao  de forma que as pessoas reconheam a razo dos sacrifcios, mas consigam enxergar l adiante uma possibilidade real de melhoria  tem condies de encerrar essa espiral e dar incio a um novo processo. O governo que est a d seguidas mostras de no ter condies de fazer isso. 

Colocado de outra forma: o senhor acha que a presidente Dilma termina o mandato? 
No quero antecipar cenrios. Mas o governo estabeleceu a mentira como mtodo. A presidente da Repblica no vai conseguir resgatar as condies de governabilidade, pelo menos enquanto no tiver a coragem de vir a pblico reconhecer sua parcela de responsabilidade pelos sofrimentos que esta crise est impondo aos brasileiros. Quanto mais insistir em falsear a verdade, atribuindo os problemas  crise internacional ou ao agravamento da seca, mais distante estar de recuperar essas condies. Em poltica, o ativo mais precioso  o tempo. E o PT perdeu esse tempo. 

Uma pesquisa do Datafolha mostrou que 63% dos brasileiros apoiam a abertura do processo de impeachment contra a presidente. Em seu partido, o PSDB, h divergncias sobre a questo. Qual a sua posio sobre o impeachment? 
A minha posio  de respeito  Constituio, e o impeachment  uma previso constitucional. O impedimento no ocorrer por desejo das oposies, mas pela combinao de um conjunto de fatores, que inclui obrigatoriamente a comprovao de culpa por crimes. Portanto, que fique claro que um desfecho amparado pela Constituio no pode ser tratado como tentativa de golpe. Golpeiam aqueles que tentam impedir o desfecho no mbito da Constituio. No sei se h hoje os elementos de culpa, mas nada impede que eles surjam mais adiante. O relatrio do ministro Augusto Nardes, do TCU,  bem firme quando afirma que houve pedaladas fiscais, e as evidncias de que a campanha de Dilma recebeu dinheiro ilegal se acumulam. Se isso for comprovado, a lei est a para ser cumprida. Cumprir a lei  respeitar a democracia. 

Uma das sadas cogitadas para a crise seria a adoo do parlamentarismo. Como o senhor v essa alternativa? 
Sou parlamentarista, sempre defendi esse  sistema e acho que no futuro  por onde devemos trafegar. Mas penso que essa discusso tem de ocorrer fora do contexto de uma crise aguda. O parlamentarismo, a meu ver, no  a soluo neste instante, quando o Congresso vive um momento de fragilizao. 

O governo do PT tenta agora fazer o ajuste que negou que faria durante toda a campanha. O ajuste do PSDB, caso tivesse sado vitorioso, seria diferente? 
O ajuste do PSDB teria uma dosagem bem mais fraca, mas produziria resultado mais rapidamente e com impacto muito maior. A retomada dos investimentos seria imediata. O ajuste do PSDB restauraria a credibilidade. Com a volta da confiana, tudo entra nos eixos. Um governo confivel poderia promover, em curtssimo prazo, a reduo da taxa de juros. Em boa medida, a disparada atual dos juros se deve  tentativa estabanada do Banco Central de restaurar a confiana. Enxergo o ministro da Fazenda cada vez mais isolado. O mais grave  ele no poder dizer em alto e bom som que as medidas do ajuste aprovadas at agora no funcionam por causa da herana maldita de sua prpria chefe. Temos um ministro da Fazenda manietado. 

Um estudo dos economistas Mansueto Almeida, Samuel Pessoa e Marcos Lisboa estima que as despesas pblicas com sade, Previdncia e educao vo aumentar 300 bilhes de reais at 2030. O Brasil est mesmo condenado ao eterno desequilbrio fiscal? 
Temos um problema estrutural que precisa ser reconhecido. Temos despesas obrigatrias que crescem mais que o PIB. Mas a realidade  que isso se agravou muito neste ltimo perodo. As propostas do ministro Joaquim Levy no conseguiram diminuir as despesas. Elas aumentaram porque o governo est sendo obrigado a pagar neste ano as pedaladas do ano passado. 

A presidente Dilma disse que a Lava-Jato provocou a queda de 1 ponto percentual no PIB. O senhor acha que o Brasil est pagando um preo alto demais para expurgar a corrupo? 
Esse, entre todos,  um preo que vale a pena ser pago. Agora, a presidente se equivoca novamente, e no tem sido fcil compreender algumas das suas afirmaes. No foi a Lava-Jato que provocou essa queda do PIB. Foi a corrupo generalizada, sistematizada e orgnica, herdada do governo de seu antecessor e por ela mantida, inclusive em reas que conduzia pessoalmente e com mo de ferro. O que a Lava-Jato faz  um bem enorme ao Brasil. A ao do Ministrio Pblico e da Polcia Federal ficar por muitos e muitos anos como um momento definidor de um Brasil mais forte e mais justo  um pas em que a lei vale realmente para todos e a impunidade  uma exceo, e no mais a regra. 

Que medidas prticas e imediatas o senhor imagina que poderiam ser tomadas para estancar a corrupo no Brasil? 
Na campanha eu apresentei uma, que continua valendo. O caminho mais curto para diminuir a corrupo  tirar o PT do governo.  a medida que antecede todas as demais. Enquanto isso, h outras. Nesta semana vou apresentar uma PEC para que, mesmo em cargos de indicao poltica, a pessoa tenha de passar por um processo de qualificao. Pode haver indicaes para esses cargos  que a meu ver tm de ser diminudos em ao menos um tero , mas precisamos profissionalizar a burocracia. Fiz isso em Minas Gerais, onde a certificao era feita pela universidade federal. Aplicamos a regra s novas indicaes. O resultado foi que 70% dos que pediram cargos nunca apareceram para tentar provar sua qualificao. Depois, estendemos a norma para aqueles que j estavam nos cargos  50% no fizeram a avaliao. Isso liberou as vagas, de forma que os cargos passaram a ser ocupados por gente qualificada. 

Integrantes do Congresso investigados pela Lava-Jato estariam articulando um movimento para barrar a reconduo ao cargo do procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot. Como o senhor v isso? 
Eu acho inconcebvel ns, aqui no Senado, negarmos apoio ao procurador-geral se for ele o indicado. No que depender de mim, vou defender a aprovao do nome escolhido pelo Ministrio Pblico. A beleza desse processo  que, apesar de tudo, dessa crise, do desatino do governo e das presses, as instituies no Brasil funcionam em sua plenitude. So elas que daro o impulso necessrio ao pas para que retome a rota do crescimento. 

O senhor perdeu a eleio mais disputada da histria democrtica e criticou muito o que chamou de "jogo sujo" do PT. H algum erro que considere ter cometido? 
Cometi vrios. Mas tenho orgulho de ter falado a verdade. Como disse a Marina Silva, na poltica, h ocasies em que voc perde ganhando, como aconteceu conosco, e ganha perdendo, como aconteceu com a presidente da Repblica. Eu ando pelas ruas tranquilamente, de cabea erguida, com a famlia, com os amigos. A presidente est sitiada. Se hoje as lideranas do PT tm de pensar duas vezes antes de ir a um restaurante,  porque esto pagando preo altssimo por ter mentido  populao e desrespeitado a inteligncia dos brasileiros. Essa eleio foi diferente das outras para o PSDB. Perdemos a disputa, mas nos reconectamos com o povo. Houve um despertar  das ruas, de gente que no se engajava em poltica, que no sabia como retomar o protagonismo do prprio destino. No podemos perder esse impulso. Somos minoria no Congresso, mas ampla maioria na sociedade.  a ela que temos de dar respostas. 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso reafirmou recentemente que Dilma Rousseff  uma "pessoa honrada". O senhor concorda? 
Pessoalmente, nunca questionei a idoneidade da presidente. Mas se existe algo com que o presidente FHC, eu e milhes de brasileiros certamente concordamos  que no h dvida de que a presidente e seu governo foram beneficiados pelo maior esquema de corrupo j montado dentro do Estado brasileiro. A questo  saber se ela fez isso conscientemente ou por omisso. Isso cabe  Justia descobrir. 

O senhor seria favorvel a essa aproximao que o governo parece estar propondo? 
Vou contar um episdio que mostra por que no confiamos na sinceridade das intenes do governo. Antes do anncio oficial do resultado da eleio, quando ficou claro que a presidente havia vencido, cumpri o ritual que o processo eleitoral dos pases democrticos recomenda, at para marcar o momento oficial da definio da eleio. Liguei para a presidente da Repblica, cumprimentei-a pela sua vitria e disse a ela: "Presidente, a sua maior misso  unir o Brasil depois de uma campanha como esta que ocorreu". Obviamente, para bom entendedor, meia palavra basta. Desejei a ela sorte no enorme desafio de governar o Brasil. Ela, de sua parte, no cumpriu a outra etapa do ritual, que  dizer publicamente que recebeu um telefonema do adversrio reconhecendo a sua vitria. Mas isso para mim  o menos importante. Naquele momento em que conversamos ao telefone, dei o sinal claro de que estava ali estendendo a mo e no poderia negar uma conversa pblica em favor do Brasil. 

Qual foi a resposta da presidente? 
Falou de unio no seu discurso daquela noite e depois nunca mais tocou no assunto. Manteve a arrogncia, continuou a culpar os outros pela gravidade da crise. No d para confiar em uma inteno real e sincera do governo de dialogar conosco. 

Qual ser a sada para a crise econmica? 
Temos instituies que funcionam e uma economia razoavelmente estruturada. Somos ainda os melhores do grupo dos Brics. A Rssia  excessivamente dependente do petrleo e do gs. A ndia tem 90% da sua economia na informalidade e uma burocracia ainda mais impenetrvel que a brasileira. A China investe na sua rede de proteo social o pouco que investamos na dcada de 70. J a frica do Sul est com uma taxa de desemprego de 25% e problemas fiscais gravssimos, mesmo em comparao com os nossos. Temos estrutura para sair da crise, mas isso  insuficiente quando a presidente no transmite confiana e no demonstra capacidade de governar. Quem tem condies de nos tirar da crise  o PSDB. Acredito que em breve o partido ser chamado a assumir sua responsabilidade de tirar o Brasil desse poo sem fundo em que o PT nos enfiou. Estamos preparados para isso. 


1#4 MALSON DA NBREGA  COMO O PT TRAVOU O CRESCIMENTO DO BRASIL
     No perodo Lula, a economia cresceu em mdia 4% ao ano, incluindo insustentveis 7% em 2010. Depois, desacelerou. No primeiro mandato de Dilma, a mdia caiu para 2,1%, com medocre 0,1% em 2014. Por que isso? 
     O crescimento na era Lula dependeu muito de dois fatores alheios  sua ao: 1) as reformas de governos anteriores, que demoraram a frutificar; 2) a China, que virou o maior importador de nossas commodities, um man dos cus cujo efeito nos deu, grtis, o equivalente a expressivos ganhos de produtividade. 
     Lula colheu frutos de rvores que outros haviam plantado. Isso  natural. Um governo planta, outro colhe. Bill Clinton (Estados Unidos) e Tony Blair (Reino Unido) se beneficiaram de reformas de seus antecessores, Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Lula insinuava, porm, que o mrito era somente seu. Pior, dizia que recebera uma "herana maldita", ao contrrio de Clinton e Blair, que sempre reconheceram mritos do passado.  
     Lula mudou o script. Quem colhe planta novas rvores para o futuro, mas ele o fez por pouco tempo, enquanto Antonio Palocci seria o ministro da Fazenda. Depois, parou. Em seguida, ervas daninhas (a nova matriz macroeconmica de Mantega e o retrocesso das intervenes de Dilma) contaminaram o pomar. A colheita caiu e agora sumiu. Clinton e Blair plantaram novas rvores e cuidaram das que herdaram. 
     O PT fez tudo errado depois que Palocci saiu. Interpretou, equivocadamente, que a crise financeira mundial de 2008 era a senha para adotar ultrapassadas ideias econmicas do partido. Prolongou, sem razo, medidas tomadas para enfrentar essa crise. A ideologia se sobreps  teoria que explica o crescimento. 
     O crescimento vem do investimento, da incorporao de mo de obra e da produtividade. Estudo recente diz que a produtividade explica 80% do crescimento da economia americana nos ltimos setenta anos. 
     A produtividade advm de muitas fontes: qualidade das instituies, nvel profissional dos trabalhadores, gesto das empresas, inovao, logstica, ambiente de negcios e outras. Os recursos devem ser alceados em atividades mais produtivas, o que aumenta a eficincia. 
     O PT contrariou praticamente tudo isso. Foram muitos os erros, o principal deles na poltica econmica. O diagnstico de escassez de demanda foi um tremendo equvoco. Estimulou-se o consumo com gasto pblico, desoneraes tributrias, queda voluntarista da taxa de juros e mais crdito nos bancos oficiais. O problema era, todavia, a baixa competitividade da indstria, isto , a oferta. 
     O excesso de consumo vazou para as importaes e os servios. A balana comercial e as presses inflacionrias pioraram. Salrios que subiam acima da produtividade elevaram o custo unitrio do trabalho, o que se agravou com a valorizao cambial. A competitividade da indstria despencou e seu ritmo de crescimento diminui desde 2012. 
     O uso poltico da Petrobras e sua consequncia, a grossa corrupo, acarretaram queda de 30% em suas inverses em 2015, as quais representam 10% do investimento do pas. O controle de seus preos, para disfarar a inflao, retirou oxignio financeiro da empresa para investir. Resultado: mais ineficincia, menos crescimento. 
     A equivocada mudana do marco regulatrio do pr-sal imps  Petrobras a exigncia de ser a operadora nica de todos os poos e de participar com pelo menos 30% dos investimentos na rea. A regra de contedo local mnimo dobrou o preo de navios e sondas adquiridos pela empresa. Mais ineficincia. 
     O adiamento de leiles do pr-sal reduziu oportunidades. Com a abertura do setor ao capital estrangeiro, o interesse se desviou para o Mxico e, depois do acordo nuclear, para o Ir. O preo do petrleo tende a cair. 
     Por ideologia ou incompetncia, o PT no realizou reformas estruturais essenciais para elevar a produtividade. Deixou de plantar. O ritmo de ganhos de produtividade foi apenas de minguado 0,5% ao ano desde 2003. O potencial de crescimento baixou de 4,5% para 1,5%. 
     A crise mundial e o fim do ciclo de commodities impactaram a economia, mas o pior veio dos erros internos. Foi o PT que travou o crescimento do Brasil. 
MALSON DA NBREGA  economista


1#5 LEITOR
CRISE NO BRASIL
Depois de ler a reportagem "Tempestade perfeita" (5 de agosto), fico com a percepo de que nossa situao  ainda pior, porque a presidente Dilma no sabe fazer nada diferente do que j fez  nem mesmo como sair da enrascada em que se meteu. 
FERNANDO CURADO 
So Paulo, SP 

Conscientemente, fizeram o que no deveria ser feito. E agora, conscientemente, no querem fazer o que  necessrio. Como ser otimista com um cenrio desses? 
MARLO VINICIOS DUARTE LEMOS 
Joinville (SC), via tablet 

Resumo da situao econmica do Brasil: esto colocando o paciente em coma induzido para tentar salv-lo. O risco  alto e o retorno esperado no  garantido. A nica certeza que temos  sobre quem pagar a conta. E a dvida: o que vir aps a tempestade perfeita? A calmaria imperfeita? 
ALEXSANDRO DE AMORIM 
Florianpolis, SC 

Desabafo, estarrecida com o buraco no qual nos metemos: a nao est no limite! EULLIA ALVES DOS SANTOS 
Por e-mail  

OPERAO LAVA-JATO 
A reportagem "O teorema da corrupo" (5 de agosto) confirma a sabedoria popular atravs das mximas "O tempo  o senhor da razo" e "O dinheiro corrompe os fracos". Hoje, o povo brasileiro j tem cincia de que foi ludibriado por um vendedor de iluso. A gigantesca falcatrua revelada pela Operao Lava-Jato haver de ser o marco indelvel para grandes mudanas. A nao aspira por novos ares. 
RONALDO DE SOUZA RIBEIRO 
Laguna, SC 

Anda enganado quem afirma que "o polmico juiz da Operao Lava-Jato conduz uma campanha contra a corrupo e, atravs dela, promove o descrdito da poltica". A Lava-Jato est apenas desmascarando uma poltica equivocada e corrupta implantada pelo PT a partir do deletrio princpio da organizao por oramentos, definido no incio do primeiro mandato de Lula, conforme bem explicado na reportagem "O teorema da corrupo". Esse esprio direcionamento resultou no sistema de compra de apoio poltico por meio de propina, para o PT se manter no poder, produzindo, entre outros descalabros, o desmantelamento da Petrobras, que desencadeou, apenas como consequncia, a Operao Lava-Jato, diante de uma poltica j desacreditada desde a sua origem. 
ELIZIO NILO CALIMAN 
Braslia, DF 

Quem poderia imaginar que aquelas tropas de choque do PT contra as privatizaes nos governos anteriores, sob a alegao de defesa do patrimnio nacional, no passavam de estratgia para garantir a futura "mquina de arrecadao de propina", conforme VEJA demonstrou muito bem. 
ADALBERTO ALVES DE MATOS 
Barra do Garas, MT 

Em relao  reportagem "O teorema da corrupo", a Infraero esclarece, em respeito aos leitores, que a atual administrao da empresa, iniciada em maro de 2011, no responde a nenhuma ao judicial oriunda de denncia do Ministrio Pblico Federal (MPF) relacionada a seus empreendimentos. Ressalta, ainda, que no recebeu notificao alguma relativa s investigaes ora em andamento no Brasil. A Infraero  uma empresa transparente e presta todos os esclarecimentos solicitados pelos rgos de controle e pela imprensa em geral, a qualquer momento. As contrataes de obras so feitas mediante licitaes pblicas, e no so permitidos atos de intermediao nos processos. Com base nos resultados dos certames, os contratos so firmados diretamente com as empresas vencedoras, sob a superviso do grupo tcnico encarregado de cada licitao, sem nenhuma interferncia. Todos os empreendimentos da estatal, incluindo os valores contratados e executados, so pblicos e podem ser verificados no site da Infraero. 
GUSTAVO DO VALE 
Presidente da Infraero 
Braslia, DF 

CARTA AO LEITOR 
O texto "O real problema de Lula" (5 de agosto)  a Carta ao Leitor mais bonita dos ltimos tempos. Uma verdadeira aula de sabedoria. Sentena com sabor de tica. To forte quanto a que vir da Justia. 
ANCHIETA MENDES 
Por e-mail 

LYA LUFT 
O brilhante artigo "O sentido das coisas" (5 de agosto), da escritora Lya Luft, reflete o momento que o Brasil atravessa, de perplexidade e indignao com lderes to incapazes e inescrupulosos, alm da crise tica e moral. Esses senhores polticos de diversos partidos e alguns grandes empresrios nos envergonham, mas talvez esse processo doloroso seja necessrio para crescermos como povo, das "elites" omissas aos mais pobres manipulados, e, unidos, caminhar juntos para o basta libertador que nos conduzir a uma ptria mais justa e menos pocot. 
RICARDO PUGLIESI 
Carapicuba (SP), via tablet 

JULIE LYTHCOTT-HAIMS 
Adorei a entrevista com a ex-reitora de Stanford Julie Lythcott-Haims ("O fracasso faz bem s crianas", 5 de agosto). Finalmente algum diz abertamente que os filhos s vo crescer e se tornar adultos responsveis e sem medos se os pais deixarem que eles enfrentem problemas e os resolvam sozinhos. Nada de Lei da Palmada, nem de Estado-bab determinando o que o cidado no pode fazer. 
AXEL HERBSTHOFER 
Guaratinguet, SP 

Excelente a entrevista com a ex-reitora de Stanford. Eu, como me de filha nica, hoje com 26 anos, sempre tive muita preocupao com os fracassos e as decepes que ela poderia ter na vida. Mas tinha de passar por eles e com certeza sair mais forte de tudo isso. Moro em uma cidade do interior do Paran, e ela, com 17 anos, foi morar sozinha em So Paulo para estudar. Formou-se e trabalha em So Paulo. Muitos me condenaram, eu sei, mas sempre pensei em quando o pai dela e eu no estivssemos mais por aqui. Ento, ela tinha de enfrentar o mundo, os medos e os fracassos que viriam, e vieram muitos. De alguns ns ficamos sabendo, mas muitos ela resolveu sozinha! 
DILENE SGARBI SANTOS 
Apucarana (PR), via tablet 

 fato que todos ns temos medo do fracasso, e, em tempos de crise, os pais esto cada vez mais protetores, com o intuito de garantir o futuro de sua prole. Entretanto, no percebem o que fazem de pssimo aos prprios amados filhos: frustrao de no ter opo de escolha; revolta por no poder pensar sem interferncia; intimidao em no fazer o "certo"; medo do futuro; e depresso pelo que so. 
LUCAS DA S. RODRIGUES 
Parnamirim, RN 

Em pediatria chamamos a situao apresentada na entrevista com Julie Lythcott- Haims de sndrome de Peter Pan, que ocasiona, alm de insegurana, baixa estatura na criana. Essa sndrome ocorre de duas maneiras: excesso de proteo ou carncia afetiva. No excesso de proteo, a criana acha que, se crescer, perder as mordomias; e, na carncia afetiva, ela acha que, se crescer, ningum ter pena dela. S que, no primeiro caso, ela cresce insegura e se transforma na gerao de "adultos-crianas", enquanto na carncia afetiva ela fica inteligente e cresce emocionalmente, podendo se tornar um adulto trabalhador, mas com problemas que variam de agressividade a falta de amor aos filhos e parentes e pode at se tornar o bandido de hoje. 
CSAR DE SOUZA LIMA COLANERI 
Mdico 
So Paulo, SP 

LEO CECIL 
Como entender a atitude de um dentista, nascido em um pas desenvolvido como os Estados Unidos, que mata um animal que era um exemplo de comportamento em relao queles que iam v-lo em seu habitat, no Zimbbue, e eram recebidos de forma amistosa ("A vida breve de Cecil", 5 de agosto)? Que esse caso do leo Cecil tenha um lado positivo, estimulando campanhas de preservao  natureza em todas as partes do mundo. 
URIEL VILLAS BOAS 
Santos, SP 

EDUCAO 
Sobre a reportagem "Entre a beleza e a frieza" (5 de agosto), gostaria de registrar um ponto que considero essencial. O possvel desaparecimento da caligrafia cria para educadores e autoridades o difcil desafio de proporcionar, de alguma outra forma, os vastos benefcios comprovados que a escrita a mo traz no campo da cognio. 
JOO BATISTA ARAJO E OLIVEIRA 
Presidente do Instituto Alfa e Beto 
Rio de Janeiro, RJ 

Correo: a Gafisa no est comprando imveis dos concorrentes, como consta da nota "Chance na crise" (Radar, 5 de agosto) 

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGOSFERA
EDITADO POR KTIA PERIN kperin@bril.com.br
CAADOR DE MITOS
LEANDRO NARLOCH
VELOCIDADE REDUZIDA
O prefeito de So Paulo, Fernando Haddad, diz que a reduo do limite de velocidade nas marginais da cidade segue a tendncia das capitais europeias. Nas autoestradas londrinas similares s marginais de So Paulo, porm, a velocidade mxima varia de 64 a 80 km/h. Em julho, a prefeitura de So Paulo baixou o limite de 90 para 70 km/h na pista expressa, de 70 para 60 km/h na central e de 60 para 50 km/h na local. www.veja.com/cacadordemitos

SOBRE PALAVRAS
SRGIO RODRIGUES
QUE NEM
A expresso "que nem", equivalente  conjuno comparativa "como", exprime uma comparao de igualdade. No entanto, ela surgiu como um comparativo de superioridade. A frase "Surdo que nem uma porta" pode ser desdobrada assim: (to) surdo que nem uma porta ( to surda quanto ele). Ou seja, "mais surdo do que uma porta", www.veja.com/sobrepalavras

NOVA TEMPORADA
FERNANDA FURQUIM
LEFTLOVERS
A segunda temporada de The Leftlovers, uma das melhores sries de 2014, estreia em 4 de outubro nos EUA. Na nova trama, o chefe de polcia Kevin Garvey deixa seu cargo e muda-se para o Texas, com a namorada e o beb que foi deixado  sua porta. Assim que chega  nova cidade, algum desaparece, www.veja.com/temporada

CALDO DE CULTURA
O BOM USO DAS REDES
A escritora mineira Paula Pimenta, autora de treze livros que j venderam 950.000 exemplares, conta no programa Caldo de Cultura como usa as redes sociais, em especial o aplicativo Snapchat, para alavancar as vendas e aproximar-se de suas leitoras, na maioria pr-adolescentes, conhecidas como "pimentinhas". "Entrei no Snapchat a pedido delas.  a rede em que os adolescentes esto atualmente. Ela permite uma comunicao informal e rpida", diz Paula. "Eu gosto porque o retorno  imediato e gratificante para os dois lados." www.veja.com/caldodecultara

CIDADES SEM FRONTEIRAS
PREO DOS IMVEIS EM QUEDA
Desde o ano passado, o mercado imobilirio nacional sofre a presso da crise econmica e da alta do dlar. O preo dos imveis, que vinha subindo desde o boom de 2010, comeou a registrar queda neste ano, com reajustes abaixo da inflao. Isso se reflete na mudana de perfil dos compradores, com cada vez mais estrangeiros interessados em fechar negcios por aqui e mais brasileiros querendo adquirir imveis no exterior. A avaliao dos imveis  venda no pas caiu, num esforo para atrair interessados. O ndice FipeZap, divulgado nesta semana, mostra que a queda j chega a 5% do valor dos imveis anunciados desde o incio do ano. O nmero  considera o aumento mdio de 1,5% no preo do metro quadrado, descontada a inflao acumulada, de quase 7% no perodo. www.veja.com/cidadessemfronteiras

INOVAO
VICIADOS EM CELULAR
O instituto Gallup fez um estudo para saber a relao de dependncia dos americanos com seus smartphones. De acordo com a pesquisa, 81% se mantm com o dispositivo o tempo todo e mais da metade confere as notificaes do celular algumas vezes por hora. A checagem obsessiva, "a cada poucos minutos", que lembra muito o comportamento de um viciado, atinge 10% dos usurios e chega a 20% entre as pessoas de 18 a 29 anos. www.veja.com/inovacao

Esta pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com
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2# PANORAMA 12.8.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  NA MALA, A ESPERANA
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM ZICO  O GALINHO QUER BRIGA
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  NA MALA, A ESPERANA
Por mar ou por terra, dezenas de milhares de srios fogem para a Europa.

 At onde um pai  capaz de ir para dar paz e dignidade  vida dos filhos? O da menina fotografada no lado externo da estao de trem em Gevgelija, cidade da Macednia na fronteira com a Grcia, j percorreu 2200 quilmetros desde a Sria, de onde partiu para fugir da guerra civil que em quatro anos matou 330.000 pessoas. Ele diz que os ferimentos no corpo da filha (nenhum dos dois teve a identidade revelada) se devem a um ataque com armas qumicas. Eles ainda tm de cruzar 760 quilmetros dos territrios macednico e srvio at chegar  Hungria, a entrada para o espao Schengen, conjunto de pases europeus que permitem a livre circulao de pessoas atravs de suas fronteiras. Essa rota terrestre  a segunda mais usada pelos emigrantes da frica, da sia e do Oriente Mdio que, fugindo da pobreza ou de guerras, tentam chegar  Europa   menos letal do que a travessia pelo Mar Mediterrneo, onde j se afogaram 2000 migrantes s neste ano, porm mais rdua e demorada. A maior parte do percurso  feita a p ou de bicicleta, para evitar encontros com a polcia. Pelas regras da Unio Europeia, os refugiados devem pedir asilo no pas de entrada. Por isso, muitos s se apresentam s autoridades quando chegam a um destino com melhores perspectivas de trabalho, como a Alemanha, ou com regras flexveis para asilo, como a Sucia. Calais, na Frana, tornou-se um entreposto para os que querem alcanar a Inglaterra pelo tnel sob o Canal da Mancha. A Hungria  s um pas de passagem para os 80.000 refugiados que entraram na UE neste ano por terra, mas j comeou a construir um muro em toda a extenso de sua fronteira com a Srvia para barr-los. Quo alta tem de ser uma parede para impedir que um pai leve os filhos para longe do inferno? 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Iami Tiba, psiquiatra e educador paulista, considerado uma referncia em psicoterapia de adolescentes e de famlia e em questes relacionadas  educao. Nascido em Tapira, era filho de imigrantes japoneses, que chegaram ao Brasil em 1936. Formou-se em medicina pela Universidade de So Paulo em 1968, especializando-se na sequncia em psiquiatria no Hospital das Clnicas, onde foi professor por sete anos. Tambm deu aulas de psicodrama a adolescentes no Instituto Sedes Sapientiae durante mais de quinze anos. Escreveu mais de trinta livros, muitos deles sobre educao. No total, vendeu cerca de 4 milhes de exemplares. Algumas de suas obras mais conhecidas so Quem Ama, Educa!, Homem-Cobra, Mulher-Polvo e Famlia de Alta Performance  Conceitos Contemporneos na Educao. Em 2004, uma pesquisa do Ibope apontou-o como o profissional mais admirado no mbito da psicologia. Colaborou com o extinto Jornal da Tarde e tinha um programa na Rede Vida. Desde o incio do ano, estava internado para tratamento de um cncer. Dia 2, aos 74 anos, em So Paulo. 

Orlando Orfei, um dos nomes mais populares do circo no Brasil e no exterior. Italiano de Riva del Garda, aos 6 anos j se vestia de palhao e subia ao picadeiro. No era para menos: nascera numa trupe circense. Adulto, decidiu-se pela carreira de domador. Conquistaria fama por sua coragem de entrar numa jaula com oito lees. No fim da dcada de 60 desembarcou no Brasil  e acabou decidindo viver aqui. Montou o Circo Nazionale dItlia Orlando Orfei, que teve sua estreia em 1969, em So Paulo. Trs anos depois inaugurou, s margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, o Tivoli Park, que se transformaria em um dos mais famosos parques de diverses do Brasil. Recebido por quatro papas - Pio XII, Joo XXIII, Paulo VI e Joo Paulo II , no fim da vida sofria de Alzheimer. Dia 1, aos 95 anos, de pneumonia, no Rio de Janeiro. 

Robert Conquest, historiador ingls, notabilizado por seus estudos sobre a extinta Unio Sovitica  em especial pelas denncias que trouxe  tona das atrocidades cometidas por Josef Stalin contra opositores. George Robert Acworth Conquest nasceu em Great Malvern, Worcestershire. Dedicou-se  poesia antes de se aprofundar na pesquisa histrica. Foi s aps a II Guerra que comeou a se interessar pela URSS. Funcionrio do British Foreign Office, que tinha como misso combater a propaganda sovitica, Conquest considerava insatisfatrias as anlises l desenvolvidas  e mergulhou no assunto. Entre seus livros mais conhecidos esto Poder e Poltica na URSS (1960) e O Grande Terror   Os Expurgos de Stalin (1968). Dia 3, aos 98 anos, de pneumonia, em Stanford, na Califrnia. 

Hans Henningsen, ex-integrante da equipe de marketing da alem Puma, marca que ajudou a divulgar contratando craques como Pel, Maradona e Zico  de quem se tornou amigo  para usar suas chuteiras. Nascido em Tenerife, nas Ilhas Canrias, veio para o Rio aos 21 anos atrado pelo futebol. Aqui, fez amizade ainda com Nelson Rodrigues, que o apelidou de "Marinheiro Sueco", pois achava que Henningsen era o nico espanhol do mundo de nome escandinavo. O dramaturgo tambm o chamava de "Onassis de tanga", pois costumava pagar refeies e rodadas de bebidas para os colegas. Trabalharam juntos na TV, comentando futebol, ao lado de Joo Saldanha, Armando Nogueira e outros  sim, craques como ele. Dia 2, aos 81 anos. 


2#3 CONVERSA COM ZICO  O GALINHO QUER BRIGA
O ex-jogador pretende se candidatar  presidncia da Fifa, concorrendo com Platini e Maradona: "O fundamental  tirar a poltica do futebol".

Fora o fato de ter sido secretrio nacional de Esportes do governo Collor, que tipo de experincia o senhor tem para ocupar um cargo poltico e tcnico como esse? 
A presidncia da Fifa no deveria ser um cargo poltico, apenas tcnico. Por ser poltico  que deu no que deu. Alm disso, trabalho no futebol h mais de quarenta anos e passei por todos os cargos. Fui jogador, presidente do Sindicato dos Atletas de Futebol do Rio de Janeiro, diretor do Flamengo, de um time no Japo, supervisor, tcnico, coordenador e auxiliar. Sinto-me qualificado para qualquer funo no futebol. 

No pode estar se metendo numa grande roubada  em vrios sentidos? 
No d  para saber sem tentar.  melhor errar assim do que por omisso. Se der errado, no vou deixar de dormir. 

Por que no d um passo menor antes, como ser presidente da CBF? 
 mais vivel ser presidente da Fifa. Para o cargo na CBF  preciso ter o apoio de oito federaes e de cinco clubes. Quem no est comprometido com ao menos um tero das federaes e com os clubes brasileiros no consegue. Na Fifa,  preciso o apoio de apenas cinco das 209 federaes. 

O senhor disse acreditar que ter o apoio da Turquia, ndia, Japo e Uzbequisto, onde j  trabalhou. Recentemente, conseguiu o da CBF, entidade em que sempre bateu. Foi difcil? 
Fizemos uma reunio, eles me apoiaram e foi s isso. O Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, deixou claro que transfere para mim a responsabilidade de conseguir os demais apoios. Mas eu no fui at ele pedir que conseguisse isso para mim. No quero favores do Del Nero. Tenho at o dia 26 de outubro para angariar os outros suportes. 

O que tem melhor do que Michel Platini e Diego Maradona, que tambm almejam o cargo? 
Eles so meus amigos e no tenho de falar nada de ningum agora. 

Ser que no comando da Fifa o senhor no poderia tentar anular aquele pnalti perdido na Copa de 1986? 
No estou dando entrevista para falar de brincadeiras. A Fifa no tem nenhuma relao com pnaltis perdidos em qualquer campeonato. 


2#4 NMEROS
2 minutos  o tempo mximo que cada um dos 12.000 brasileiros que carregaro a tocha olmpica no Brasil ficar com ela nas mos. 
12 anos  a idade mnima para ser selecionado para a tarefa. Qualquer brasileiro pode sugerir pela internet nomes de carregadores. 
300 cidades do pas assistiro  passagem da tocha, que percorrer 19.700 quilmetros entre maio e agosto do ano que vem, quando comea a Rio 2016. 
7 vezes mais longo foi o percurso da tocha em Pequim 2008, o maior desde 1936, quando teve incio o ritual de levar a sede dos Jogos a chama acesa em Olmpia, na Grcia. 


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Carros usados -  O financiamento desses veculos superou o dos zero-quilmetro pela primeira vez desde 2011. 
Aluno "importado" -  Boa parte dos estudantes das escolas mais bem posicionadas no Enem no cursou todo o ensino mdio nelas - o que sugere que os estabelecimentos "atraem" esses alunos na reta final para subir na lista.  
Rodrigo Janot -  Responsvel pela Lava-Jato, o procurador-geral da Repblica passou com folga pela eleio da categoria e pela presidente Dilma. Precisa s da aprovao do Senado para ser reconduzido ao cargo.

DESCE
Caadores -  Depois do assassinato do leo Cecil, companhias americanas de aviao anunciaram que no mais transportaro em suas aeronaves carcaas de grandes animais selvagens. 
Geleiras -  Elas perderam, entre 2001 e 2010, 70 centmetros de espessura em mdia, o dobro da dcada anterior, segundo o Journal of Glaciology. 
Fernando Collor -  O senador investigado pela Lava-Jato mostrou todo o seu pedigree na tribuna do plenrio ao encerrar com o mais vulgar dos palavres um discurso de ataque ao procurador-geral Rodrigo Janot. 


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 GOVERNO
CONVERSA NO ROMPIMENTO 
Eduardo Cunha rompeu de modo retumbante com o governo em 17 de julho, mas topou um encontro secreto com Dilma Rousseff na quinta-feira 30. No se acertaram, porm. 

MENOS CATORZE 
O martelo no est 100% batido. Mas, se vingar, o enxugamento em estudo no governo far o nmero de ministrios cair de 38 para 24.

PROJETO PRIORITRIO
O Brasil passa por uma situao peculiar, que s ajuda a fermentar a crise: tanto a presidente da Repblica quanto os presidentes do Senado e da Cmara, ambos investigados na Lava-Jato, tm hoje como principal projeto concluir os respectivos mandatos. 

SEM VISTO 
Em busca de turistas estrangeiros e de suas divisas, Henrique Alves est trabalhando dentro do governo para emplacar uma MP que isentaria da obrigatoriedade de visto todos os americanos que desembarcarem no Brasil entre janeiro de 2016 e o fim da Olimpada. O ministro do Turismo est de olho sobretudo no dlar: os americanos so os turistas que mais gastam no Brasil. 

ALIANA ESTRATGICA 
Com sutileza, Renato Janine Ribeiro vem se aproximando de Jaques Wagner. Janine Ribeiro aos poucos tenta um contraponto ao poderoso Luiz Cludio Costa, secretrio executivo que  o homem de confiana de Aloizio Mercadante. 

 PT 
COMIDA EM CASA 
Num encontro com senadores em Braslia no ms passado, Lula desabafou, desolado, sobre o clima de dio contra o PT. Relatou que deixou a Presidncia com uma aprovao nas alturas, mas que hoje no tem mais condies de ir com a mulher a nenhum restaurante do pas  "nem em So Bernardo", ressaltou. 

 LAVA-JATO 
BOM CONTRATO 
A Hope, prestadora de servios da Petrobras que apareceu na delao premiada de Milton Pascowitch que resultou na priso de Jos Dirceu, detm o maior contrato da diretoria de Servios da Transpetro  uma mdia de 2,5 milhes de reais por ms. O contrato foi firmado pelo ex-diretor Rubens Teixeira, indicado ao cargo por Marcelo Crivella. Na Lava-Jato, a Hope aparece dando 500.000 reais mensais de propina. 

 BRASIL 
CORAO DE ME 
O principal assessor de Eduardo Paes, Ronnie Costa, emprega parte da famlia na prefeitura do Rio de Janeiro. Fernanda, sua mulher,  gerente na Empresa Olmpica Municipal, responsvel pela Olimpada. O irmo mais velho, Eduardo, coordena rgos subordinados  Secretaria de Conservao. Ao caula, Guilherme, restou trabalhar numa ONG terceirizada.   

A MACONHA CHEGA AO SUPREMO  
Ricardo Lewandowski pautou para a sesso da quinta-feira 13 o processo em que um cidado recorre contra a punio por porte de drogas. A deciso impactar outros casos do tipo no pas. Nela, os ministros podem acabar por descriminalizar o consumo pessoal de maconha e at especificar a quantidade da droga que seria considerada consumo. Gilmar Mendes j deu sinais de que deve apresentar um relatrio a favor do recurso. O ru, Francisco Souza, foi condenado a dois meses de prestao de servios comunitrios por ter sido flagrado com 3 gramas de maconha. A Defensoria Pblica de So Paulo o representa no recurso e alega que a proibio do porte para consumo contraria os princpios constitucionais da intimidade e da privacidade.  

 ECONOMIA 
NOME DE VALOR 
Quando uma empresa compra outra, o primeiro ganho ser sempre na sinergia. Na aquisio do HSBC Brasil pelo Bradesco, imediatamente o banco presidido por Luiz Trabuco vai economizar 200 milhes de reais. Esse  o valor pago anualmente pela subsidiria brasileira  matriz, em Londres, pelo uso da marca. S com essa medida, praticamente reverteria os 247 milhes de reais de prejuzo que o HSBC Brasil registrou em 2014.     

 ESPORTE 
FUTEBOL DISNEY  
A segunda edio da Copa Flrida, que acontecer em janeiro, em Orlando, e contar com times internacionais, alm de Fluminense, Corinthians e Palmeiras, ser organizada pela Disney.  a primeira vez que a empresa promove um torneio de futebol. A Disney quer usar esse esporte como plataforma para atrair mais brasileiros nas frias de janeiro apesar da alta do dlar.   

 LIVROS 
TACADA CERTEIRA 
Editora dos trs principais livros para colorir que inundaram o mercado editorial em 2015, a Sextante, dos irmos Toms e Marcos Pereira, j faturou cerca de 25 milhes de reais apenas com eles.


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

Fica institudo, no municpio de Campinas, Estado de So Paulo, o dia do ' gol da Alemanha', no para ser comemorado, e sim para ser lembrado como o dia da maior tragdia do futebol brasileiro. - JOTA SILVA, vereador (PSB), na ementa de seu projeto de lei referente  data de 8 de julho - quando, na semifinal da Copa de 2014, os alemes venceram o Brasil por 7 a 1. Diante da polmica despertada, Silva desistiu da ideia. "No entenderam o esprito da proposta", alegou. 

Hoje a economia brasileira sofre com a prpria doena que vinha carregando de algum tempo combinada com os efeitos colaterais para combater essa doena. - GUSTAVO LOYOLA, ex-presidente do Banco Central e scio da consultoria Tendncias, em O Estado de S. Paulo. 

Aa pessoas que comearam uma nova unio depois da derrota do seu casamento sacramental no esto excomungadas, e elas no devem ser tratadas dessa forma. (...) A Igreja no tem as portas fechadas para ningum." - PAPA FRANCISCO, em audincia, no Vaticano. 

Algumas pessoas acham que  um disco genial. Mas eu acho que  uma mistura de lixo. - KEITH RICHARDS, guitarrista da banda britnica Rolling Stones, falando  revista americana Esquire sobre o lbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), dos Beatles. 

Meus filmes so como um copo de gua gelada em um dia quente de vero. - WOODY ALLEN, cineasta americano, em entrevista a Rodrigo Salem, publicada na Folha de S.Paulo.

Cabe aos donos do poder o mea-culpa de haver suposto sempre serem a nica voz legtima a defender o interesse do povo. - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, ex-presidente da Repblica, em sua coluna divulgada em vrios jornais. 

 preciso que algum tenha capacidade de unir a todos. - MICHEL TEMER, vice-presidente da Repblica, em reunio com lderes do Congresso e ministros, no Palcio do Planalto. 

No  melhor a gente no acertar em cheio tentando fazer o bem do que errar feio fazendo o mal?" -JOS DE ABREU, ator, no papel de apresentador do programa do PT, levado ao ar na quinta-feira passada. 

Tenho muito pouca resistncia fsica para tudo, para lcool e para todas as outras drogas que experimentei. J vi gente tendo overdose, mas eu mesma jamais chegaria quele ponto. - MAIT PROENA, atriz e escritora, na edio especial de quarenta anos da PLAYBOY. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto das novas prises da Operao Lava-Jato 
O mundo possui uma fora feroz, que se chama direito. - ALESSANDRO MANZONI, escritor italiano (1785-1873)
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3# BRASIL 12.8.15

     3#1 O BRASIL PERDE A CALMA
     3#2 UM DILOGO DE SURDOS
     3#3 O FIM DA FARSA
     3#4 ELA VEIO PARA FICAR
     3#5 UMA SITUAO (SUR)REAL
     3#6 FALTOU MAIS CAPITALISMO

3#1 O BRASIL PERDE A CALMA
     A atual  diferente de todas as crises graves pelas quais o Brasil passou em sua histria contempornea. Na transio do regime militar para a democracia, em que o presidente Tancredo Neves adoeceu e morreu, ou no impeachment de Collor, havia uma crise pblica marcada por enfrentamentos violentos, radicalismos, ameaas e bravatas. Mas havia tambm um intenso dilogo de bastidores em que as diferenas eram aplainadas e as partes cediam aqui e ali em favor de uma soluo pacfica. Como mostra o conjunto de reportagens desta edio especial, o que domina a cena agora  uma conversa de surdos.

PANELAO  O governo finge que no ouve as ruas
JOS DIRCEU  O mito era uma farsa
DELAO PREMIADA  Ela veio para ficar
DLAR  A crise poltica estressa o mercado financeiro
GIAMBIAGI  "Somos uma Grcia em cmera lenta


3#2 UM DILOGO DE SURDOS
Crise econmica, crise poltica, traies, impeachment, Lava-Jato, impopularidade. O governo petista est desorientado, pede socorro, mas finge que no ouve o barulho das ruas.
DANIEL PEREIRA

     DILMA ROUSSEFF EST S. LULA, seu padrinho poltico e mentor, articula uma interveno no governo para transform-la numa espcie de rainha da Inglaterra, mantendo-a no exerccio do mandato, mas sem poder de fato. No Congresso, parlamentares aliados votam sistematicamente contra ela, inclusive petistas, e alguns partidos j ameaam desembarcar da nau governista. Na rea econmica, a situao no  menos desconfortvel. A presidente colhe o que plantou: desemprego e inflao em alta, deteriorao das contas pblicas e perda de credibilidade entre analistas, empresrios e investidores. At as ruas, que j deram a Dilma o status de recordista de popularidade, viram as costas para ela. Segundo o Datafolha, Dilma conquistou o ttulo de presidente mais impopular do pas. Seus ndices de reprovao e aprovao so de, respectivamente, 71% e 8%, ambos recordes. A tempestade parece mesmo perfeita. O risco de no terminar seu segundo mandato, real. Foi para afastar essas ameaas que o PT usou sua propaganda partidria, na quinta-feira, para defender a presidente e o governo. O programa, como de costume, acusou os adversrios de tentar tumultuar o ambiente poltico e responsabilizou a crise internacional pelos problemas na economia. As panelas entraram em cena. 
     Em rpidas aparies, Lula e Dilma pediram o apoio da populao para superar uma tormenta que seria momentnea e prometeram um perodo de bonana logo ali  frente, justamente como fizeram na ltima disputa eleitoral. "Estamos num ano de travessia, e essa travessia vai levar o Brasil para um lugar melhor", declarou Dilma, retomando a candidata-otimista de 2014. "Quem pensa que nos faltam energia e ideias para vencer os problemas est enganado. Sei suportar presses e at injustias", acrescentou, tirando do armrio o figurino da candidata-vtima. Acossada por diversas frentes, entre elas a Operao Lava-Jato, que colheu depoimentos que colocam sob suspeita a legalidade do financiamento de sua reeleio, Dilma, ao que parece, decidiu reagir. O programa do PT terminou com uma exibio de panelas cheias de comida e um ator, amigo pessoal de Jos Dirceu, narrando as conquistas do Brasil nos ltimos tempos. 
     Foi uma forma de ironizar os protestos contra o governo. Em resposta a essa provocao, uma nova onda de panelaos varreu o pas. E vem mais por a. Est sendo convocada para o prximo domingo, 16, uma manifestao contra a presidente e a administrao petista, considerada pea-chave para a definio do futuro de Dilma. Petistas, peemedebistas e tucanos concordam que, se houver grande adeso popular, ganhar corpo a articulao de bastidor destinada  abertura de um processo de impeachment. Os trs partidos consideram real a possibilidade de a presidente ter o mandato abreviado. A preocupao  tamanha que, recentemente, Lula pediu a caciques do PT e do PMDB ajuda para pressionar Dilma a trocar o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o da Justia, Jos Eduardo Cardozo, por pessoas da sua confiana. Na prtica, o ex-presidente quer assumir o governo. H algumas semanas, Lula chegou a sondar o vice Michel Temer (PMDB-SP) sobre a possibilidade de ele, que  advogado, assumir a Justia. J petistas graduados querem o prprio Lula na Casa Civil ou em outra pasta. Conversas nesse sentido se acentuaram depois da priso de Jos Dirceu. Lula teme ser preso. Se assumir um ministrio, ter direito a foro privilegiado, o que, no clculo do partido, o proteger do juiz Srgio Moro e da cadeia. 
     "O Lula quer costurar uma sada honrosa para a Dilma. Ningum mais confia na presidente ou est disposto a ajud-la. Os partidos querem uma alternativa para superar a conjuntura adversa", diz um petista habitue do Instituto Lula e das conversas de coxia. Essa anlise feita nos bastidores ganhou ares pblicos na semana passada, quando o vice Michel Temer, numa entrevista a jornalistas, afirmou que a crise  grave e que o Brasil precisa de "algum que tenha a capacidade de reunificar a todos". Temer no  chegado a frases polmicas nem ao papel de incendirio. Mas, intencionalmente ou no, tocou fogo no circo. A declarao repercutiu imediatamente, e a anlise era quase consensual: Temer havia rifado a presidente e se colocado  disposio para governar o pas e promover um grande acordo nacional. Em anncio publicado na imprensa, as duas maiores federaes da industria brasileira manifestaram apoio  proposta de unio apresentada por Temer. No anncio, ele  citado nominalmente, e Dilma, ignorada. 
     Se um processo de impeachment for aprovado, Temer assumir a Presidncia da Repblica. Setores do PMDB tm roteiro pronto para que a troca de comando acontea. Ele foi traado pelo presidente da Cmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que assumiu publicamente ser oposio a Dilma depois de ser acusado por um delator do petrolo de embolsar 5 milhes de dlares em propina. H outro movimento menos barulhento mas que aponta na mesma direo. Nos prximos dias, o Tribunal de Contas da Unio (TCU) julgar as contas de Dilma de 2014. A tendncia  que sejam reprovadas. Se isso ocorrer, o Congresso ter de analisar a deciso. Caso seja ratificada a rejeio, haver a apresentao de um pedido de impeachment contra a presidente. Um eventual afastamento do cargo depender de uma srie de fatores: apoio popular, situao da economia do pas e grau de fidelidade da base governista, que, em tese, tem votos suficientes para manter Dilma no mandato. Temer jura que trabalha para ajudar a presidente. Um dia depois da entrevista aos jornalistas, reuniu-se com ela para lhe dar explicaes. Disse que tentou, com sua declarao, apenas cobrar de governistas e oposicionistas responsabilidade na hora de votar a chamada pauta-bomba, que pode gerar custos extras bilionrios para os estados e a Unio. 
     Dilma aceitou os esclarecimentos, at porque precisa de Temer e de outros peemedebistas para conter os prprios peemedebistas. Na semana passada, o obstinado Eduardo Cunha conseguiu, com sucessivas votaes em plenrio, limpar o terreno para que a rejeio das contas de Dilma pelo TCU seja votada pelos deputados to logo chegue  Cmara. Cunha se diverte com as dificuldades da mandatria e, aos risos, diz torcer para que Lula volte a comandar o governo. Ao menos por enquanto a preocupao principal de Dilma  com o ajuste fiscal. A presidente sabe que a intensidade do barulho das panelas vazias depende do sucesso das medidas econmicas. Dilma, porm, tambm est s nesse terreno. Com o apoio de petistas, deputados aprovaram em primeiro turno mais um projeto que aumenta o salrio de servidores pblicos. A deciso foi tomada horas depois de o ministro Aloizio Mercadante pedir ajuda para conter a sangria dos debilitados cofres pblicos. Considerado arrogante, Mercadante esbanjou humildade, fez um mea-culpa  em nome do governo e estendeu a mo aos oposicionistas, elogiando os tucanos. "Existem questes de responsabilidade fiscal, como controle da inflao, que vocs fizeram, e isso foi importante para o pas. Tem que ter um acordo suprapartidrio", disse Mercadante. 
     O governo ainda lida com a Operao Lava-Jato, que promete surpreendentes revelaes nos prximos dias sobre o maior esquema de corrupo da histria. Com o agravamento da crise poltica e econmica, Lula, que anda desaparecido das ruas, peregrina por Braslia em busca de um improvvel acordo suprapartidrio, segundo ele, para impedir a criminalizao da poltica. Dilma desconfia que a movimentao do petista esconde uma tentativa de interveno branca em seu governo. O ex-presidente pediu a um interlocutor que negociasse uma conversa dele com Fernando Henrique Cardoso. O tucano no topou o encontro e, numa entrevista, elogiou Dilma e responsabilizou Lula pelo escndalo do petrolo. So esses movimentos errantes que fazem de Lula, Dilma e o PT tripulantes de uma nau sem rumo  incapazes, por enquanto, de entender o recado das panelas. 

A QUEDA 
A ltima pesquisa do Datafolha mostra que Dilma  mais impopular at mesmo do que Collor s vsperas do impeachment. A presidente tem rejeio recorde de 71%.
2 E 3 DE DEZ/14: 42%
9 E 10 DE ABR/15: 13%
17 E 18 DE JUN/15: 10%
4 E 5 DE AGO/15: 8%


3#3 O FIM DA FARSA
A priso do ex-ministro Jos Dirceu sepulta uma utopia que nunca existiu e marca o incio do encerramento de um ciclo de populismo e corrupo que devastou o Brasil.
DANIEL PEREIRA

     Jos Dirceu sempre ocupou um lugar de destaque no panteo da esquerda brasileira. Foi lder do movimento estudantil, combateu a ditadura militar, viveu na clandestinidade e, depois da redemocratizao, comandou a caminhada do Partido dos Trabalhadores rumo  Presidncia da Repblica. Nessa trajetria, tornou-se um mito de mltiplas facetas: sedutor, exmio articulador poltico e mobilizador de massas. Saudado por companheiros como "guerreiro do povo brasileiro", ele personificava o sonho de implantao no Brasil do primeiro projeto de poder genuinamente popular, capaz de combater a desigualdade, promover a incluso social e mudar o jeito de fazer poltica. Se o PT era a vestal, Dirceu simbolizava a virtude. Duas grandes farsas. Duas grandes mentiras. Na semana passada, o juiz Srgio Moro mandou o ex-chefe da Casa Civil novamente para a cadeia, sob a acusao de instituir o petrolo e se beneficiar dos recursos roubados da Petrobras. A deciso demoliu a figura do heri imaginrio da narrativa petista. Atrs das grades, restou apenas o ladro. 
     Foi a terceira priso de Dirceu. A primeira ocorreu no regime militar e, em linha com as arbitrariedades e violncias cometidas na poca, sem respeito ao devido processo legal. Dirceu conseguiu a liberdade ao ser trocado junto com outros catorze presos polticos pelo ento embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Elbrick, que havia sido sequestrado por militantes de grupos de resistncia  ditadura. Depois dessa negociao, partiu para o exlio em Cuba e, mais tarde, viveu com outra identidade no Brasil, o que alimentou a aura e a pose de lder revolucionrio. J a segunda priso ocorreu em plena democracia e com o PT no exerccio do poder. O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Dirceu a sete anos e onze meses de priso por corrupo no processo do mensalo. Ele ficou quase um ano encarcerado antes de migrar para o regime de priso domiciliar, que cumpria at ser alvo da Operao Lava-Jato. A temporada no presdio produziu apenas arranhes em sua imagem diante de companheiros e admiradores. Os petistas mais inocentes ainda acreditavam na fantasia de que Dirceu era vtima de uma conspirao das elites e de setores conservadores da sociedade contra o governo dos trabalhadores e dos oprimidos. Foi para eles que Dirceu, encenando um protesto, ergueu o punho cerrado no momento em que seguia para a priso. 
     J os petistas mais cnicos repetiam que Dirceu no havia usado o mensalo para enriquecer pessoalmente. Se participara do esquema de suborno a parlamentares, o "guerreiro" o fizera em nome da causa do partido  e isso no seria nem de longe um demrito. Coube aos responsveis pela investigao do maior esquema de corrupo da histria do pas desmascarar o personagem fictcio que ele interpretou durante dcadas. Dirceu foi preso na 17 etapa da Operao Lava-Jato, batizada de Pixuleco  uma aluso ao termo empregado pelo ex-tesoureiro do PT Joo Vaccari Neto para se referir s propinas recolhidas na Petrobras. Para o Ministrio Pblico e o juiz Srgio Moro, Dirceu instituiu o petrolo e se beneficiou dele. Participou do roubo e do rateio do butim. Os investigadores j sabiam que a empresa de consultoria do ex-ministro recebera, entre 2006 e 2013, 39 milhes de reais, parte deles de empreiteiras acusadas de participar do petrolo. Ao analisarem os contratos, identificaram repasses de recursos sem a devida prestao de servios e ouviram de empresrios que eles haviam dado dinheiro ao petista para ajud-lo a bancar despesas pessoais. Como no h almoo de graa, essa ajuda financeira era uma contrapartida  mozinha dada por Dirceu para que superassem eventuais entraves nas engrenagens da estatal. 
     Ciente dessas informaes, Dirceu apresentou vrios habeas-corpus  Justia pedindo para no ser preso. Nos recursos, alegava ter realizado os servios contratados e rechaava as suspeitas de enriquecimento pessoal. Essa estratgia de defesa ficou de p at o lobista Milton Pascowitch fechar um acordo de delao premiada com as autoridades. Responsvel por defender os interesses da Engevix na Petrobras, Pascowitch disse ter repassado pelo menos 4,5 milhes de reais para bancar despesas pessoais de Dirceu. Fruto de contratos fraudulentos, esse dinheiro bancou viagens do ex-ministro em jatinhos executivos, bem como a compra e a reforma de imveis (veja o quadro). Pascowitch declarou, por exemplo, ter pago 1 milho de reais  construtora que reformou um apartamento de Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, irmo de Dirceu preso na mesma etapa da Operao Lava-Jato. Alm disso, revelou que usou uma de suas empresas para comprar, por 500.000 reais, um apartamento para uma filha do ex-ministro. O delator apresentou recibos de todas essas despesas. "Entendemos que o DNA  o mesmo do mensalo e da Lava-Jato", disse o procurador Carlos Fernando Lima. "A responsabilidade de Jos Dirceu  evidentemente como beneficirio de maneira pessoal, e no mais de maneira partidria." 
     A Polcia Federal tambm descobriu que Dirceu lanou mo de seu ex-scio Jlio Csar dos Santos para comprar uma casa em Passa Quatro (MG), onde mora a me do ex-ministro. O petista recorreu ao laranja, conforme o delegado Mrcio Anselmo, numa tentativa de ocultar patrimnio. "A prova do recebimento de propina mesmo durante o processamento da ao penal 470 (mensalo) refora os indcios de profissionalismo e habitualidade na prtica do crime", disse o juiz Moro. Quando deixou a cadeia para cumprir em casa o restante da condenao do mensalo, Dirceu traou uma meta: mudar-se para Portugal com a mulher e a filha mais nova to logo sua pena fosse declarada extinta. Entre os portugueses, desfilaria como vtima de um julgamento poltico e retomaria a carreira de consultor de sucesso. Ao apresentar Dirceu no figurino de um bom e velho corrupto, a Lava-Jato acabou com esse plano. E, de resto, enterrou a utopia de certos companheiros  incluindo os cnicos e os inocentes. 

O "SUPOSTO JORNALISTA"
     O dinheiro desviado da Petrobras servia a diversos propsitos. Financiava partidos, subornava polticos, corrompia funcionrios pblicos, sustentava mordomias e, sabe-se agora, tambm comprava jornalistas. Na semana passada, os procuradores encarregados da Operao Lava-Jato pediram a priso de Leonardo Attuch, dono do site Brasil 247, especializado em louvar os feitos  do governo e lustrar a imagem de petistas pegos com a mo na botija. A priso, indeferida pelo juiz Srgio Moro, foi solicitada depois que o lobista Milton Pascowitch contou ter repassado ao jornalista 120.000 reais do esquema de corrupo da estatal a mando do ex-tesoureiro do PT Joo Vaccari Neto. Em nota, Attuch afirmou que o negcio se resumia a pagamento por servio de "produo de contedo jornalstico e de estudos especiais na rea de infraestrutura". O lobista, por sua vez, garantiu que no houve servio algum. Era dinheiro de propina mesmo  foi pago por ordem do PT, e no foi pela primeira vez. 
     Antes da revelao de Pascowitch, os investigadores j haviam descoberto uma conexo financeira do jornalista com os criminosos do petrolo. Um bilhete apreendido pela polcia no incio da Operao Lava-Jato mostrou que Attuch tinha um crdito de 240.000 reais com o doleiro Alberto Youssef. Crdito com doleiro  sinnimo de dinheiro de origem ilegal. Para Attuch, era outra simples prestao de servio. Para a polcia, mais propina. 
     No despacho em que indeferiu o pedido de priso de Attuch, o juiz Moro escreveu: "Os fatos indicam provveis repasses de valores de origem criminosa  referida editora e ao suposto jornalista a pedido de terceiros e com propsitos ainda de necessrio esclarecimento". Basta verificar quem so os alvos preferenciais do "suposto jornalista" e cruzar com a lista dos que pagam pelos "servios" dele. O mistrio ser naturalmente esclarecido.
ROBSON BONIN

NEM DEU PARA APROVEITAR
     Da casa original, s sobraram as paredes e o teto. O restante do imvel de 420 metros quadrados, em um condomnio em Vinhedo, interior de So Paulo, foi posto abaixo. Em seis meses, operrios pagos pelo delator Milton Pascowitch reformaram tudo ao gosto do dono do local, o hoje detento Jos Dirceu. Na sute reservada ao proprietrio, voltada para uma ampla varanda, construram um ofur. Na sala de reunies, instalaram uma mesa de doze lugares e uma TV de 52 polegadas, para videoconferncia. Um dos pontos altos da reforma foi a colocao, na sala, de uma tela de vidro de 80 polegadas que reflete as imagens da TV tambm do lado de quem est na cozinha. No andar de baixo do imvel, os operrios ergueram quatro sutes, com ar-condicionado e televiso, para os empregados - dois seguranas, um motorista e uma domstica. O conforto dessas instalaes virou assunto na regio - vrios candidatos a emprego passaram por l para deixar o currculo. O ex-ministro j tinha uma casa de dois andares no mesmo condomnio. A que Pascowitch reformou, vizinha desse imvel, teria a funo adicional de servir de escritrio para o petista - da a sala de reunies e o equipamento de videoconferncia. O custo total da reforma foi de 1,3 milho de reais - e nem um centavo saiu do bolso do ex-chefe da Casa Civil. 
     O lobista Milton Pascowitch, que assinou acordo de delao premiada na Operao Lava-Jato, confessou aos investigadores que o dinheiro que custeou a reforma da casa de Dirceu veio de pagamento de propina feito pela Engevix, empreiteira que ele representava. Em troca desses valores, a Engevix foi contratada sem licitao pela Petrobras para executar obras no Polo de Cacimbas II, no Esprito Santo. 
     Dirceu pouco pde aproveitar a casa reformada  as obras foram realizadas em 2012, ano do julgamento do mensalo. A tela de 80 polegadas, por exemplo, serviria para que assistisse aos jogos da Copa do Mundo de 2014 com amigos. Mas, condenado a sete anos e onze meses de priso, ele passou o Mundial na cadeia. Fazia quase um ano que o ex-ministro cumpria pena em regime de priso domiciliar em sua casa em Braslia. H duas semanas, teve negado o pedido de autorizao para passar o Dia dos Pais em Vinhedo. Mas, mesmo que tivesse sido concedido, o telo continuaria desligado, j que Dirceu est de novo na cadeia.
WLTER NUNES


3#4 ELA VEIO PARA FICAR
Com a instituio das delaes premiadas, a lei brasileira segue uma tendncia mundial no combate ao crime, mas j h quem queira restringir a conquista.
MARIANA BARROS

     No comeo, era apenas um despiste. "Espalhamos que j tinha gente na fila para colaborar, mas a gente ainda no tinha nada." A confisso, divulgada meses atrs,  do procurador Carlos Fernando Lima, considerado o crebro da fora-tarefa de Curitiba, quando lembrava como ele e os colegas conseguiram atrair os primeiros suspeitos da Lava-Jato para inaugurar os hoje to famosos, to temidos e to aguardados acordos de delao premiada. Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, abriu a fila. Seu acordo foi homologado pelo juiz Srgio Moro em 27 de agosto de 2014, uma quarta-feira. Da em diante, um carrossel virtuoso comeou a girar com uma delao puxando a outra, e alguns acusados apressando-se para assinar a delao antes que no houvesse mais novidades a revelar. Na semana passada, a Lava-Jato tinha 25 acordos homologados. Mas, como se tornou habitual nesse escndalo, as expectativas sempre se voltam para o prximo acordo. 
     Na mira dos procuradores est o empreiteiro Lo Pinheiro, ex-presidente da OAS, preso h nove meses. Desde o primeiro contato com o Ministrio Pblico, seus advogados esto negociando os termos de uma delao cujo potencial explosivo  medido em escala atmica. A princpio, o empreiteiro resistia  delao na esperana de pegar at dois anos de priso em regime fechado, limite que dizia suportar. Na semana passada, o juiz Srgio Moro condenou Pinheiro a dezesseis anos de priso, dos quais pelo menos dois e meio tero de ser cumpridos em regime fechado. A condenao, um pouco maior do que o esperado, pode quebrar suas ltimas resistncias a abrir o bico. Outros dois, ambos ex-diretores da Petrobras, ainda no assinaram acordo, mas j esto em estgio avanado conversas para informar os procuradores sobre o que podem oferecer em troca de reduo de pena. So eles: Renato Duque, homem do PT na direo da Petrobras, e Nestor Cerver, o propineiro de Pasadena. 
     O volume de acordos de delao premiada na Lava-Jato  algo jamais visto em qualquer investigao criminal no pas. Resulta da confluncia de um acontecimento de 1990 com outro de 2004. Em 1990, o instituto da delao premiada apareceu pela primeira vez na legislao brasileira, na nova lei dos crimes hediondos. Foi ampliado nove anos depois para todos os demais crimes, deixando de se restringir aos hediondos. Em 2004, quando trabalhava no caso Banestado, escndalo de remessa ilegal de dinheiro para o exterior, um jovem juiz homologou uma das primeiras delaes feitas nos moldes atuais. Era Srgio Moro. O delator era o mesmo Alberto Youssef de agora, o doleiro que se tornou talvez o nico brasileiro a ter feito no uma, mas duas delaes premiadas. Juntando a lei de 1990, o juiz de 2004 e a megarroubalheira na Petrobras, produziram-se as condies para o recorde: 25 acordos de colaborao, e a conta ainda no terminou. 
     A delao premiada surgiu como um antdoto contra a globalizao do crime. Com organizaes criminosas transnacionais cada vez mais sofisticadas, os legisladores, sobretudo na Itlia e nos Estados Unidos, passaram a pensar em instrumentos capazes de chegar aos chefes desses mamutes do crime: as mfias, os cartis da droga, os grupos terroristas, as quadrilhas de corruptos. A colaborao de um acusado em troca da reduo da pena surgiu como o nico meio de quebrar o cdigo de silncio dos criminosos e pr as mos no alto-comando. Nos ltimos trinta anos, os Estados Unidos acumularam vasta experincia nesse campo. Desde a Operao Mos Limpas, na dcada de 90, uma gigantesca ao contra polticos corruptos, a Itlia tambm avanou. O relativo sucesso da delao premiada no combate ao crime organizado levou a ONU a lanar uma conveno anticorrupo cujo texto sugere explicitamente que os pases-membros adotem algum tipo de recompensa aos criminosos que denunciam comparsas. 
     Assim, a delao premiada comeou a proliferar pelo mundo. O Brasil assinou a conveno no ano do seu lanamento, em 2003, e promulgou-a trs anos depois. A novidade, no entanto, est longe de ser consensual. Os advogados, em geral, e os criminalistas, em particular, consideram a delao premiada um instrumento antitico e imoral porque a negociao da pena corrompe o processo penal, cuja essncia  comprovar, ou no, a culpa do ru, e no coloc-la numa barganha. Tambm lhes desagrada o fato de a delao premiada levar o acusado a renunciar a um direito fundamental  o direito a um processo justo , pois a sentena  previamente acertada. As reservas so mais fortes em pases como o Brasil, cujo ordenamento jurdico vem da tradio romana, em contraposio ao de tradio inglesa. Em 2003, quando o governo da Frana props uma reforma jurdica que copiava parte do sistema dos Estados Unidos, houve uma gritaria geral. Mesmo na ptria mundial da cidadania, os franceses acabaram se rendendo  dureza da realidade do crime. A Assembleia Nacional aprovou as mudanas, inclusive a delao premiada. Hoje, um francs pode ficar at quatro dias preso sem acusao formal, algo impensvel at uma dcada atrs. 
     L fora, como aqui, a criminalidade est mudando o direito penal. Alm de fazerem eco s reclamaes no exterior, os criminalistas brasileiros, no caso da Lava-Jato, acusam o juiz Srgio Moro de usar as prises cautelares para forar acordos de delao. O procurador Manoel Pastana, em peties ao Tribunal Regional Federal da 4 Regio, em Porto Alegre, corte que supervisiona as aes de Moro, chegou a escrever que a priso dos acusados tinha "a importante funo de convencer os infratores a colaborar com o desvendamento dos ilcitos penais". Diante dos protestos de advogados, Pastana disse que fora mal interpretado, mas fez uma emenda pior que o soneto ao proclamar: "Passarinho para cantar precisa estar preso". 
     Os protestos dos advogados nunca foram ouvidos enquanto os delatores eram criminosos annimos que denunciavam comparsas tambm annimos. Depois que polticos poderosos e grandes empreiteiros comearam a ter seu passado sombrio revelado por delaes, as maiores bancas de advocacia do pas levantaram a voz para restringir o que consideram abusos. Um deles seria prender o acusado para for-lo a delatar. O advogado Luiz Flvio Borges D'Urso, presidente da Associao Brasileira dos Advogados Criminalistas, est empenhado num projeto que probe delao assinada com o acusado em priso cautelar. Diz ele: " um instrumento vlido, que vem sendo aperfeioado e est num estgio razovel, mas ainda requer ajustes". O presidente da Cmara, deputado Eduardo Cunha, a quem a ideia foi apresentada, adotou-a de imediato: "No podemos deixar ningum com uma espada (no pescoo), na condio de s ter liberdade se algo for delatado". A lei atual diz claramente que a delao s vale se for feita por livre e espontnea vontade do suspeito. Portanto, no h nenhuma necessidade de mudar a lei para proibir delaes de presos. Quem acha que determinado acordo foi arrancado  base de coao pode contest-lo com base na legislao atual. Atribuir o elevado nmero de delaes da Lava-Jato ao uso abusivo de prises cautelares  um equvoco mais ou menos comum, porm desmentido pelos fatos. At julho, havia dezoito delaes homologadas, das quais apenas seis aconteceram com o acusado na priso. 
     Seguindo a tendncia mundial, a legislao brasileira, como a de qualquer outro pas,  resultado de circunstncias locais. Na maioria dos casos, no entanto, onde quer que a delao premiada seja adotada, o principal benefcio  a reduo da pena. Os acordos agilizam a tramitao do caso na Justia e reduzem os custos, enquanto sentenas menores evitam o agravamento da superlotao nos presdios. At agora, dos quatro principais delatores j sentenciados na Lava-Jato, trs ganharam o benefcio de cumprir a pena em casa. Como so universais os problemas de uma Justia morosa e cara, e prises apinhadas de gente, a delao  sempre premiada com a reduo da pena pelo mundo afora.  assim nos EUA, na Inglaterra, na Itlia, na Espanha, na Colmbia. 
     No Brasil, ainda que relativamente recente, a lei da delao contempla o fundamental. O delator que mente, por exemplo, perde todos os benefcios a que teria direito.  incomum que acontea, mas, como o mundo do crime  composto de criminosos, ningum se surpreende quando um delator  flagrado na mentira. Em 1997, depois de quatro anos colaborando com a Justia, o mafioso Anthony Casso, comparsa da famlia Lucchese em Nova York, teve sua delao cancelada. Os investigadores descobriram que ele estava mentindo. Condenado por uma penca de homicdios, pegou treze penas de priso perptua mais 455 anos. Casso tem 75 anos, e est preso. 
     H aspectos, porm, nos quais a legislao brasileira pode avanar. Nos Estados Unidos,  comum o uso de delatores para ajudar a investigar um crime, coisa que no se faz no Brasil. Seria como convencer Joo Vaccari, o ex-tesoureiro do PT preso em Curitiba desde abril, a fingir-se de morto nas reunies da tesouraria e grampear as discusses de propina. No escndalo da Fifa, os Estados Unidos usaram essa ttica. Chuck Blazer, cartola do futebol americano, ficou quase dois anos repassando informaes  polcia americana enquanto ainda era membro do comit executivo da Fifa, posto que ocupou de 1997 at dois anos atrs. Uma de suas misses era gravar suas conversas com outros cartolas do futebol na Olimpada de Londres, em 2012. Seu trabalho ajudou a viabilizar a priso de altos dirigentes da Fifa na Sua. 
     O pior que poderia acontecer no Brasil seria a restrio da delao premiada a ponto de inutiliz-la, agora que se revelou um instrumento eficaz para quem nunca precisou lidar com o peso da lei.  to eficaz que, entre os investigadores, h enorme expectativa em relao a dois dos acusados mais grados da Lava-Jato que permanecem calados. Um deles  Jos Dirceu, preso na semana passada. O outro  Marcelo Odebrecht, levado para Curitiba em junho. Ningum aposta a srio que algum deles contar o que sabe. Mas todos apostam que, se um deles o fizesse, a Repblica Federativa do Brasil amanheceria no dia seguinte com outra cara. 

QUEBRANDO O SILNCIO
Em que fase da delao premiada esto os principais acusados na Lava-Jato

CONTATO INICIAL
Os acusados que j comearam a negociar com o Ministrio Pblico
Nestor Cerver, ex-diretor da Petrobras, preso desde janeiro.
Lo Pinheiro, ex-presidente da OAS, preso desde novembro.

CARDPIO DE DENNCIA
Os que j apresentaram o leque de revelaes que podero vir a fazer
Renato Duque, o homem do PT na direo da Petrobras.
Fernando Baiano, lobista e operador do PMDB.

ACORDO HOMOLOGADO
Os acusados cuja delao premiada j foi aceita pela Justia
Jlio Camargo, ex-executivo da Toyo Setal.
Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC.
Pedro Barusco, brao-direito de Renato Duque na Petrobras.
Milton Pascowitch, operador da construtora Engevix.
Jlio Faerman, representante no Brasil da holandesa SBM.

PRMIO
Os que j foram sentenciados e receberam os benefcios da delao
Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, cumprir sua pena de doze anos em casa.
Alberto Youssef, doleiro, foi condenado a oito anos e quatro meses de priso, mas ficar apenas trs anos em regime fechado.
Dalton Avancini, ex-presidente da Camargo Corra, foi condenado a quinze anos e dez meses, pena que cumprir em casa.
Eduardo Leite, ex-dirigente da Camargo Corra, foi condenado a quinze anos e dez meses e cumprir a pena em casa.


3#5 UMA SITUAO (SUR)REAL
Os investidores tiram dinheiro do pas e a cotao do dlar caminha para 4 reais. A moeda brasileira no valia to pouco em relao  americana havia doze anos.  um prenncio de mais inflao, com a crise poltica aprofundando a crise econmica
MARCELO SAKATE E BIANCA ALVARENGA

     O cu vai ficando mais escuro sobre a economia brasileira. A crescente indefinio sobre o desfecho da crise poltica e a incerteza quanto aos cenrios para os prximos meses fazem com que os investidores se protejam comprando dlares. A cotao da moeda americana subiu na ltima semana e alcanou 3,57 reais, o maior patamar em doze anos. A alta seguiu inabalada mesmo com o anncio do Banco Central de que ampliar a sua interveno para conter uma valorizao excessiva. Um diretor do BC chegou a dar uma entrevista dizendo que "a taxa de cmbio est muito alm do que seria explicado pelos fundamentos econmicos" e que os investidores "esto agindo com pouca racionalidade". Depois de anos de uma poltica econmica surreal e irracional, ganhou dinheiro apenas quem fez justamente o que esse diretor condena: comprar dlares. S nos ltimos doze meses, a cotao subiu mais de 50%. De maio a julho, quando ficou evidente  a dificuldade do ministro Joaquim Levy de retomar a credibilidade no pas, 10,7 bilhes de dlares deixaram o Brasil. 
     Entre os analistas do mercado financeiro, o impeachment da presidente Dilma Rousseff parecia uma hiptese improvvel h poucos meses. Agora, essa possibilidade comea a ser incorporada na elaborao de cenrios de grandes investidores, bancos e consultorias. Uma pesquisa da corretora XP Investimentos d a dimenso da mudana de percepo no mercado financeiro: em abril, metade dos 100 grandes investidores consultados, como fundos privados e de penso, dizia no enxergar nenhuma probabilidade de impeachment. Na semana passada, no houve quem no dissesse que essa hiptese de fato existe. Um em cada quatro investidores avaliou que o risco  superior a 50%. A rebelio poltica no Congresso e a incapacidade da presidente de exercer liderana e aprovar as aes necessrias inviabilizam o reequilbrio das contas pblicas. Ela est refm ainda dos petardos de alguns congressistas que pem em votao os chamados "projetos-bomba"  medidas que criam despesas bilionrias para os prximos anos, sem indicar de onde viro as receitas para cobri-las.  o caso da aprovao pela Cmara, na semana passada, da medida que aumenta o salrio de servidores da Advocacia-Geral da Unio, de procuradores estaduais e municipais e de delegados das polcias Federal e Civil. 
     O fortalecimento do dlar  um fenmeno mundial motivado pela retomada econmica nos Estados Unidos, que amplia a rentabilidade de aplicaes no pas. Mas o processo tem sido mais acentuado no Brasil em razo da fragilidade da economia e das incertezas sobre o que vai acontecer.  uma pssima notcia para a empresa que depende de insumos importados ou que possui dvida em moeda estrangeira.  o caso da Petrobras. A estatal teve um lucro de 5,9 bilhes de reais no primeiro semestre, uma queda de 43% em relao ao mesmo perodo de 2014, em boa parte por causa do impacto financeiro da alta do dlar. A sua dvida cresceu 15% no perodo. Para os brasileiros que viajam ao exterior, a situao tambm  desfavorvel. A moeda americana era vendida a 3,80 reais em casas de cmbio na semana passada. Os bancos estimam que o dlar chegar aos 4 reais no prximo ano. 
     A desvalorizao acentuada do cmbio encarece os produtos importados e as mercadorias cotadas em dlar. Assim, dificilmente a inflao ceder. Pssima notcia para o BC, que havia acabado de sinalizar que pararia de subir os juros. A Selic est em 14,25%, e a avaliao predominante at o ms de julho era que o processo de aperto da poltica monetria tinha chegado ao fim. Mas, na semana passada, como reflexo da piora da crise poltica, os contratos futuros comearam a refletir a avaliao do mercado de que os juros tero de continuar por mais tempo em nvel elevado para conter os preos. Na ltima vez em que os diretores do BC se reuniram para decidir a taxa de juros, eles avaliaram o comportamento da economia com base em um cenrio de referncia em que o dlar permanecia cotado a 3,25 reais. No  mais o caso. A inflao acumulada em doze meses  de 9,56%, a maior taxa nessa comparao desde 2003. "H quem acredite que, se Dilma deixar a Presidncia, tudo vai se ajustar", afirma Andr Perfeito, economista-chefe da corretora Gradual Investimentos. "Mas no  to simples. O mercado pode piorar ainda mais, porque no se sabe o que vir depois", diz o analista. Ele ressalta que h outro ajuste relevante em andamento, o dos salrios, por meio da desvalorizao do cmbio. Na comparao internacional, os brasileiros passam a ganhar menos, o que devolve competitividade ao setor produtivo, mas  custa do aumento do desemprego e da perda relativa de renda.  um reequilbrio necessrio, porm doloroso, diante da ausncia de medidas que possam fazer a produtividade subir. 
     Na ltima dcada, o Brasil tirou proveito do crescimento acentuado da demanda da China por minrios e bens agrcolas para ampliar as exportaes, o que valorizou o real com a entrada macia de moeda estrangeira, enriqueceu o pas em termos relativos e impulsionou a economia. Mas essa bonana ficou para trs.
     A desvalorizao do real produz efeitos nas relaes comerciais, ao tornar os produtos brasileiros mais competitivos. Mas esse  um processo gradual. Por ora, os sinais so tmidos e esto longe de compensar a queda nas cotaes de matrias-primas. Um real fraco, apenas, no soluciona os gargalos produtivos. "As dificuldades so sistmicas.  preciso prover uma malha logstica mais eficiente, simplificar a cobrana de tributos e facilitar os financiamentos", diz Welber Barral, ex-secretrio de Comrcio Exterior. So medidas que o governo deveria ter tomado no momento em que a economia crescia e havia apoio poltico e recursos pblicos  disposio. "A sada paliativa para a crise seria aumentar o volume exportado para compensar a reduo do preo das matrias-primas", diz Fbio Silveira, diretor de pesquisa econmica da consultoria GO Associados. Mas ele avalia que, em um ano de retrao, ser difcil para o pas ganhar competitividade. "No houve preocupao em preparar o Brasil para um momento ruim." 

O DLAR PELO MUNDO
(valorizao em doze meses, at 6 de agosto)
BRASIL 54%
Mxico 23%
Zona do Euro 22%
Japo 22%
Canad 20%
Chile 18%
Argentina 12%
Reino Unido 9%
ndia 4%

O FIM DA BONANA EXTERNA
Queda do preo [*at 6 de agosto] dos produtos nos mercados internacionais em relao ao pico recente de alta.
Soja (variao entre set/12 e ago/15 -46%
Petrleo (Brent) (variao entre abr/11 e ago/15) -61%
Minrio de ferro (variao entre fev/11 e ago/15) -71%
Caf (variao entre mar/11 e ago/15) -58%
Acar (variao entre jul/11 e ago/15) -61%

COM REPORTAGEM DE ISABELLA DE LUCA


3#6 FALTOU MAIS CAPITALISMO
Na economia, estou vendo sair do armrio os fantasmas dos anos 80. Enfrentamos a volta da inflao e o ressurgimento das preocupaes com o dficit pblico elevado. Sou da gerao que experimentou o Plano Collor. Tenho trauma de ver a dvida pblica em alta." O alerta  do economista Fbio Giambiagi, especialista em finanas pblicas e autor de Capitalismo: Modo de Usar (Editora Elsevier), que chega s livrarias na prxima semana. Para o analista, terminou o ciclo de crescimento estimulado pelo setor pblico. "Vivemos uma tragdia grega em cmera lenta", disse ele em entrevista a VEJA. A sada para o pas ser aceitar as regras do capitalismo moderno, baseado na competio, e fazer reformas para aumentar o potencial de crescimento. 
GIULIANO GUANDALINI

OPORTUNISMO ELEITORAL
A economia premia o esforo de longo prazo, mas, na arena da poltica, isso no leva necessariamente a vitrias eleitorais. Medidas para vencer as eleies podem se revelar politicamente eficazes, porm economicamente desastrosas. Os pases que conseguem progredir so aqueles onde h equilbrio entre os objetivos econmicos de longo prazo e as necessidades polticas de curto prazo. O Brasil estava numa trajetria positiva nos anos Fernando Henrique Cardoso, mas os resultados foram lentos e a crise energtica de 2001 fez estragos na popularidade do governo. Portanto,  natural que a oposio da poca tenha vencido em 2002. Lula foi feliz mantendo as polticas de FHC, mas cometeu um dos maiores erros da histria do pas quando, por uma combinao de miopia ideolgica e oportunismo eleitoral, se afastou do caminho virtuoso. O drama que estamos vivendo em 2015, com arrocho, queda do salrio real e aumento do desemprego,  o resultado de uma estratgia que levou o governo a descuidar do equilbrio macroeconmico para ganhar trs eleies: as de 2006, de 2010 e de 2014. Agora, a conta chegou, com juros e correo monetria. 

RETROCESSOS 
At anos atrs, havia uma poltica anti-inflacionria clara e uma meta crvel de  4,5%, na qual depois ningum mais acreditou. A poltica fiscal era excelente at 2008, compreensvel durante a crise e, de modo geral, progressivamente pior nos anos seguintes, at o cenrio de horror de 2013 e 2014. A politizao de muitas das agncias reguladoras e dos rgos setoriais ficou visvel. Alexis de Tocqueville pregava que os governantes ensinassem a cada dia que a riqueza  fruto do trabalho e que nada se obtm de durvel seno aquilo que se adquire com esforo. Infelizmente, toda a ao dos governantes nos ltimos dez anos foi no sentido exatamente oposto, com nfase no consumismo de curto prazo. 

GRCIA EM CMERA LENTA 
O risco est no que chamo de "italianizao" da economia, a convivncia com uma fase prolongada de crescimento medocre, baixa produtividade, fragmentao poltica e ausncia de lideranas com viso e capacidade de tirar o pas do atoleiro. Seria pior do que na Itlia, porque, se o crescimento for baixo, a conta da Previdncia ser cada dia mais pesada.  um cenrio de tragdia grega em cmera lenta. No somos a Grcia atual, mas a Grcia transformou-se no desastre de hoje porque no corrigiu o seu rumo quando ainda dava tempo. 

O ESTADO EXAURIDO 
Como afirmo no livro, para alm do debate acerca da intensidade do ajuste fiscal, a sociedade precisa mudar o modo de encarar o Estado. Temos de migrar de uma mentalidade focada em como obter um naco maior do oramento para outra direcionada a criar, inovar, progredir e aumentar a produo. Nos Estados Unidos, os indivduos sabem que o papel do governo  dar educao e prover os servios de sade, alm de uma aposentadoria mnima. O que acontece com a vida de cada um depende essencialmente do indivduo. No Brasil, temos uma relao intensa com o Estado, que exerce um papel paternalista, o que hoje  incompatvel com a prosperidade. Isso nos levou a uma carga tributria que ameaa chegar a 40% do PIB para se ajustar  demanda por gasto pblico e gerou um Estado exaurido. O problema  que, como disse o ministro Joaquim Levy, o dinheiro acabou. 

UMA CONTA INSUSTENTVEL 
O Estado paga um grande nmero de benefcios a muita gente e por um longo tempo. A ideia de que o grosso do dinheiro dos impostos se esvai com polticos corruptos serve para fazer discurso em palanque, mas no corresponde  realidade, por mais exasperante que seja o fato de termos nos tornado o pas dos escndalos. Em 2014, o governo federal pagou quase 500 bilhes de reais de benefcios previdencirios, 85 bilhes em servios de sade, 55 bilhes em seguro-desemprego e abono salarial, 30 bilhes de Bolsa Famlia, e por a vai. Esse modelo no qual o Estado paga cada vez mais est esgotado. Um levantamento do economista Fernando Montero revela que, entre 2003 e 2014, o total de indivduos que recebem algum tipo de transferncia do governo federal passou de 39 milhes para 78 milhes de pessoas. O nmero dobrou em pouco mais de dez anos. No h pas que aguente. 

ANTICAPITALISMO 
Um estudante tpico vai sair da escola com a cabea cheia de minhocas, submetido a uma intensa pregao de anos e anos contra o lucro e contra o sistema capitalista. Aos 18 anos, vai cair na vida sem ter a menor noo de quanto deve poupar por ms para se aposentar, ou de quanto deve separar a partir dos 22 ou 23 anos para poder dar uma entrada para adquirir a casa prpria aos 30 anos. Quando descobrir como o mundo funciona, j estar endividado e pendurado no cheque especial. Seria muito melhor se, em vez de ter aulas baseadas em um marxismo de quinta categoria, ele fosse preparado para a vida. Sabemos como esse cidado tpico  jogado no mercado aos 18 anos.  verdade que uma parcela da populao quer empreender, ter um negcio prprio, mas o Brasil, como um todo, preparou-se muito mal para o mundo de hoje. Somos um pas pobre em produtividade e dramaticamente pouco competitivo. O que aconteceu na semana passada, com a votao do projeto com o aumento para diversas carreiras,  sintomtico: toda a nfase  no sentido de o Estado gastar mais. H algum que se coloque a pergunta de como fazer para o pas produzir mais? 
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4# INTERNACIONAL 12.8.15

OS DOIS LADOS DO TERROR
Aps o assassinato de um beb rabe, Israel toma medidas para conter jovens colonos extremistas. Equipar-los com terroristas palestinos, contudo,  um exagero.
NATHALIA WATKINS

     No territrio conturbado em que vivem, tanto israelenses como palestinos sofrem com a constante ameaa do terrorismo. O termo no se aplica somente aos rabes palestinos. Nas ltimas semanas, o protagonismo foi do terrorismo judeu. Nas primeiras horas da manh de sexta-feira 31, dois homens mascarados invadiram o vilarejo palestino de Duma, na Cisjordnia. Eles quebraram os vidros de duas casas e lanaram coquetis molotov. Uma habitao estava vazia. Da segunda, saram Saad Dawabsheh, operrio palestino que vive de construir casas para colonos judeus, sua mulher e um dos filhos do casal, de 4 anos. Todos tiveram queimaduras graves. O filho Ali, um beb de 18 meses, morreu queimado. Do lado de fora da casa, os criminosos picharam os dizeres "vingana" e "vida longa ao rei Messias". 
     Dois dias antes, a polcia prendera dois extremistas judeus acusados de atear fogo  Igreja de Tabgha, onde, segundo a tradio crist, Jesus realizou o milagre da multiplicao dos peixes e pes. Na mesma semana, um judeu ortodoxo esfaqueou seis pessoas durante a parada gay de Jerusalm e matou uma estudante de 16 anos. A condenao dos ataques por todo o arco poltico de Israel levou o procurador-geral do pas a aprovar a priso administrativa de trs israelenses suspeitos de terrorismo na semana passada. A ordem permite que eles sejam detidos sem julgamento e por tempo indeterminado. Esse recurso j  amplamente usado contra radicais palestinos. "Estamos determinados a lutar energicamente contra manifestaes de dio, fanatismo e terrorismo em ambos os lados", disse o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. 
     Entre os terroristas judeus presos esto Yinon Reuveni, de 20 anos, e Yehuda Asraf, 19. Os dois extremistas foram acusados de vandalizar a igreja no dia 18 de junho. O terceiro detido  Meir Ettinger, neto do rabino Meir Kahane, assassinado por um palestino em 1990, em Nova York. Ettinger  tido como um dos idelogos da erradicao de no judeus de Israel e da substituio do Estado moderno por uma monarquia religiosa. "Esses jovens no reconhecem o Estado e no aceitam as regras sociais. Por isso, querem levar sua ideologia nacionalista at o fim", diz o socilogo Shlomo Fischer, pesquisador do Instituto de Poltica do Povo Judeu, em Jerusalm. Os terroristas judeus, contudo, no so numerosos. Estimam-se em algumas dezenas os radicais violentos. Eles tambm so pouco organizados e no possuem armas de fogo, mas nem por isso deixam de ser perigosos. Tampouco contam com a complacncia ou o apoio de parte da populao, como acontece entre os palestinos. "Quase 99,9% dos israelenses rejeitam o terrorismo. No cultuamos a morte, mas  preciso reconhecer que tambm temos loucos por aqui", diz Yaakov Amidror, ex-conselheiro de segurana nacional de Netanyahu. Yishai Schlissel, o ultraortodoxo que atacou participantes da parada gay em Jerusalm, agiu sozinho. Ele j havia cometido o mesmo crime dez anos atrs e cumprido pena. Apesar de no simpatizar com a causa gay, a comunidade ultraortodoxa rejeitou os crimes cometidos por Schlissel. 
     Os fatos das ltimas semanas no indicam uma curva ascendente do terrorismo judaico. O incndio da casa e da igreja e o ataque  adolescente tm poucas similaridades com os movimentos radicais dos anos 1980, mais politizados e organizados.  poca, grupos como a Liga de Defesa Judaica, criada por Kahane, inspiraram judeus a fazer justia com as prprias mos. Foi o caso do ataque de Baruch Goldstein contra fiis muulmanos em Hebron, que matou 29 pessoas em 1994. A velha guarda foi neutralizada pela Justia e por outras instituies democrticas de Israel. Ainda inspira, porm, a nova gerao. H cerca de dez anos acontecem ataques conhecidos como "preo a pagar". So aes de uma minoria radical de colonos judeus que ocorrem em resposta  violncia palestina ou a decises do Estado consideradas injustas, como a demolio de construes ilegais em assentamentos na Cisjordnia. Em 2013, foram registrados cerca de 400 incidentes. No ano passado, foram 330. Em geral, so atos de vandalismo contra mesquitas, igrejas e bens de palestinos. H um ano, o rabe Muhammad Abu Khdeir morreu queimado por judeus como um ato de vingana contra o sequestro e assassinato de trs adolescentes judeus  episdio que deflagrou uma semana de bombardeio mtuo entre Israel e o governo palestino da Faixa de Gaza. O Ministrio da Defesa concedeu  famlia de Khdeir (que no tinha envolvimento na morte dos adolescentes) indenizao idntica  que  dada s vtimas do terrorismo palestino. Judeus e rabes s tm a ganhar com o fato de a Justia israelense ter comeado a tratar de maneira mais equnime extremistas dos dois lados. 
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5# GERAL 12.8.15

     5#1 GENTE
     5#2 IMPRENSA  AQUELA CONTA NO  DELE
     5#3 TECNOLOGIA  O FUTURO QUE NO CHEGOU
     5#4 HISTRIA  O INFERNO ATMICO
     5#5 ESPECIAL  NDICE UBER (OU COMO MEDIR O APREO OU A AVERSO PELA LIVRE-INICIATIVA)

5#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Karina Morais e Thas Botelho

A CALMA  INIMIGA DA PERFEIO
A nadadora recifense ETIENE MEDEIROS conta que se considera "zen" e que, por isso, precisa fazer meditao "para a ativao da velocidade" antes de provas importantes. Est a uma boa dica para quem quer rapidez: no principal campeonato de natao do mundo, ocorrido na Rssia, na semana passada, Etiene bateu o recorde sul-americano de velocidade na prova dos 50 metros costas e ainda levou a medalha de prata, a primeira feminina do Brasil num torneio desse porte. Embora o resultado no garanta sucesso na Olimpada, seu tcnico, Fernando Vanzella, avalia que faltam poucos ajustes para a nadadora tambm se dar bem no Rio de Janeiro. "Ela tem uma das melhores sadas do mundo. S precisa aperfeioar a amplitude do nado", diz ele. "Etiene est estudando novos desenhos para fazer mais tatuagens. Sou um cara tradicional e j discutimos por causa disso." Deixa a menina, treinador!

A HERDEIRA TRAVESSA DE HAMLET
MARGRETHE, 75, a rainha da Dinamarca,  tradutora, ilustradora (fez desenhos para a verso local de Harry Potter), j produziu figurinos para o bal real dinamarqus e usa roupas coloridonas que ela mesma faz. Apesar de todo esse charme, a rainha no consegue se livrar da patrulha contra seu companheiro de dcadas: o cigarro. Mdicos j disseram que sua alta popularidade tem influncia na taxa de mortalidade feminina por causa do cigarro, e um jornal sueco se indignou quando ela acendeu o pito durante uma visita a um hospital de asmticos. Dias atrs, ao ser flagrada fumando ao lado dos netos, a grita se renovou. "O politicamente correto no nos impressiona. Deixem as pessoas morrer de fumar, se quiserem", disse o prncipe Henrik, seu marido, um ex-fumante, mas que h anos a defende. Tem graa ser rainha se nem um cigarro se pode fumar em paz?

O INCRVEL HULK, OPS, THOR
LUMA DE OLIVEIRA parece mais jovem. EIKE BATISTA parece que deu uma aumentadinha no volume capilar. OLIN parece estar sonado no meio dos pais. E THOR, que, num abrao, pode esmagar a famlia toda. Pesando entre 100 e 105 quilos, marombeiro obcecado e usurio declarado de hormnios, o primognito do ex-casal cresce a cada post na internet. Sim, porque no basta inflar, tem de colocar no Instagram suas fotos, bombando os bceps. Uma das que fizeram mais sucesso foi aquela em que Thor aparece, de cueca, ao lado de um amigo tambm semivestido, levantando peso. Sobre o uso de DHEA, o hormnio que o ajuda a ficar com a cara, do Hulk, Thor escreveu no Twitter: " muito bacana e inofensivo para 90% das pessoas". Para ele, parece que no.

DE FILME QUEIMADO
Linda, e sem muita expresso como atriz, JESSICA ALBA se encontrou mesmo foi nos negcios. Em 2012, ela abriu uma empresa de produtos de higiene e beleza que no contm componentes txicos  assim ela garante. A empreitada deu to certo que Jessica se tornou, nos Estados Unidos, uma das mais ricas self-made women, uma mulher que erigiu sozinha seu lugar ao sol. O problema  que esse mesmo astro tem torrado a reputao da atriz. Iradas, clientes postaram na internet fotos de corpos queimados depois de terem usado o protetor solar da marca de Jessica  cujo nome , raios, The Honest. "Esse filtro  intil", disse uma. "Minha filha est toda queimada", falou outra. Jessica se desculpou: "Di ouvir que algum teve uma experincia negativa com nosso produto". Imagine a dor delas. 


5#2 IMPRENSA  AQUELA CONTA NO  DELE
VEJA publicou um extrato do banco suo BSI e o atribuiu a uma conta no declarada de Romrio. O BSI disse que o extrato  falso. A revista pede desculpas ao craque.

     VEJA reconheceu seu erro e pediu desculpas ao senador Romrio de Souza Faria horas depois de ele ter publicado em suas redes sociais, na quarta-feira passada, a carta que o banco BSI enviou s autoridades suas. "Ns estabelecemos como certo que este extrato bancrio  falso e que o Sr. Romrio de Souza Faria no  o titular desta conta em nosso banco na Sua." O extrato em questo foi publicado h duas semanas por VEJA em uma reportagem sobre Romrio como prova de que ele era titular de uma conta no BSI com saldo equivalente a 7,5 milhes de reais. Em sua manifestao na pgina principal de VEJA on-line, a revista escreveu: "Por ter publicado um documento falso como sendo verdadeiro, VEJA pede desculpas ao senador Romrio e aos seus leitores". 
     VEJA est a pouco mais de trs anos de completar meio sculo de existncia, perodo em que se firmou como fonte de informao confivel e de qualidade para seus milhes de leitores. A revista atingiu seu invejvel grau de credibilidade e influncia no Brasil no apenas pela constncia com que publica, dcada aps dcada, apuraes corretas de fatos relevantes  mas tambm pela maneira clara, direta e transparente com que reconhece seus eventuais erros. No entanto, o caso do extrato falso de Romrio no pode ser encerrado apenas com o reconhecimento do erro e um pedido de desculpas. 
     VEJA continuar apurando o episdio em duas frentes. Internamente, estamos revisando passo a passo o processo que, sem nenhuma m-f, resultou na publicao do extrato e nos cercando de ainda mais cuidados para que esse tipo de erro nunca mais se repita. 
     Na frente externa, os reprteres da revista continuaro tentando descobrir de que maneira e com que objetivo o extrato do BSI foi adulterado. Entender a dimenso do nosso erro implica tambm esclarecer as aes de pessoas antes e depois da publicao do extrato. As autoridades suas sero de grande valia nessa tarefa. 
     Nada disso, porm, nos exime do pedido de desculpas que fizemos ao ex-craque e aos nossos leitores em VEJA on-line e que aqui, com toda a sinceridade, repetimos. 


5#3 TECNOLOGIA  O FUTURO QUE NO CHEGOU
O skate flutuante pode at no vingar nas lojas, mas saber que ele funciona j o faz fascinante.
FILIPE VILICIC, JENNIFER ANN THOMAS E RAQUEL BEER

     O escritor Arthur C. Clarke, cuja obra-prima 2001: uma Odisseia no Espao foi levada ao cinema por Stanley Kubrick, no clssico dos clssicos da fico cientfica, afirmava: "Qualquer tecnologia suficientemente avanada  indistinguvel de magia". Bem-vindo, portanto, ao skate Slide, da fabricante japonesa de carros Lexus, apresentado na semana passada. Inspirado no similar fictcio de Marty McFly, interpretado por Michael J. Fox na saga cinematogrfica De Volta para o Futuro, o dispositivo levita a at 4 centmetros do solo. Em um filme de divulgao, skatistas realizam manobras improvveis em Barcelona. No  ilusionismo, mas h um truque. O skate flutua sobre um trilho de ims (no teste, escondido embaixo de um cho de madeira pintado de cinza) pelo princpio de flutuao magntica, no qual se simula o efeito de polos de cargas iguais, que se repelem. Muito se celebrou o fato de a pea ter sado do cinema para a vida real, embora com trinta anos de atraso.  assim mesmo. H uma regra imutvel e bonita da cincia: antes da inveno propriamente dita, desponta a pura imaginao, a inspirao primria para os inventores criarem. Se ela vingar ou no,  outro captulo. 
     O uso do cinema (e da televiso, claro) para apontar os primrdios de inovaes espetaculares  didtico e combina  perfeio com o mais bem-acabado chavo para defini-lo: fbrica de iluses. O tablet, hoje um aparelho banal, foi apresentado pela primeira vez no 2001 de Kubrick, em 1968. Houve tentativas anteriores de fabric-lo, mas s em 2010 virou o que conhecemos, com o iPad da Apple. Impressoras 3D, to em voga? Antes de surgirem os seus prottipos, os tripulantes da USS Enterprise, da srie de TV Jornada nas Estrelas, lanada nos anos 60, utilizavam a "replicator". A mquina sintetizava materiais, de roupas a comida, em questo de segundos. As impressoras 3D modernas fazem isso (apesar de levarem horas e mais horas para entregar uma pea de qualidade apenas razovel). 
      princpio bsico do mtodo cientfico, para no perder o tom da narrativa, que a imaginao venha sempre antes da descoberta. Ou seja, que o futuro seja cogitado, antes de chegar. Pelo mtodo, formula-se primeiro uma hiptese para, depois, prov-la ou refut-la. Dizia Albert Einstein, para definir seu modo de pensar: "A imaginao  mais importante que o conhecimento. O conhecimento  limitado ao que j sabemos e compreendemos, enquanto a imaginao abraa todo o mundo, e tudo aquilo que ainda viremos a saber e compreender". Foi o puro pensamento ldico, por exemplo, que instigou o incio da explorao espacial. No sculo XVII, Isaac Newton usou como base sua lei universal da gravidade para imaginar um canho que, de cima de uma montanha, dispara um projtil com velocidade suficiente para superar a atrao da gravidade e escapar da rbita da Terra. "Isso mudaria tudo", simplificou o astrofsico americano Neil de Grasse Tyson, em recente entrevista a VEJA. Foi a gnese intelectual da criao de foguetes, disparados para o espao, a caminho da Lua, tal qual o canho superpotente elaborado na mente de Newton. 
     O skate de De Volta para o Futuro, assim como o barco flutuante do vilo Jabba the Hutt em Star Wars (Guerra nas Estrelas) e os carros voadores do desenho Os Jetsons, povoou a mente de geraes de crianas e adolescentes que, depois, vieram a se tornar cientistas, engenheiros, designers. "Esses objetos da fico cientfica capturam a imaginao e criam o desejo pela tecnologia, antes de ela existir", definiu o empreendedor e escritor Ross Dawson, fundador do conglomerado Advanced Human Technologies, de empresas especializadas no que chama de futurologia (prever quais tecnologias vingaro no futuro). Desde o segundo filme da saga De Volta para o Futuro, quando o skate flutuante foi apresentado, inventores de toda sorte tentam reproduzir o engenho. "Sabemos que ele ainda no tem funo comercial, mas o fizemos mesmo assim, por ser divertido", admitiu a VEJA o engenheiro Richard DeVaul, que desenvolveu um prottipo semelhante para o Google. 
     A graa  a brincadeira, mais que a utilidade. Ainda no surgiu um skate como o do filme, que levita sobre qualquer superfcie. O Slide, da Lexus,  o que mais se aproxima disso, e funciona de modo anlogo ao skate do filme. Levita entre campos magnticos que o estabilizam no ar. Porm, s  possvel mant-lo acima do cho sobre pistas adaptadas com ims. Na impossibilidade de cobrir todas as cidades do planeta com esses trilhos, por bvio, ele se torna intil comercialmente. Tanto que a Lexus no pretende lan-lo em lojas e no divulga quanto custou o prottipo, desenhado como uma jogada de marketing no ano em que o primeiro ttulo da saga que o inspirou completa trs dcadas. A tecnologia por trs dele, porm,  promissora. Princpio semelhante de flutuao magntica  empregado no desenvolvimento do trem japons Maglev, prometido para 2027, que, em testes, j atinge a velocidade de 600 quilmetros por hora. 
      claro que nem tudo o que  imaginado  cabvel. Falava o matemtico John Nash, morto neste ano, conhecido por ter sua vida retratada no filme Uma Mente Brilhante: "Na loucura, tive ideias, mas todas estranhas. Nenhuma aproveitvel". At promessas ldicas em torno de tecnologias reais, j presentes, muitas vezes vo por gua abaixo. Na dcada de 80, acreditava-se que a fuso a frio, tcnica que une o ncleo de dois tomos de hidrognio para gerar energia, seria popular no sculo XXI como fonte energtica, substituindo combustveis fsseis. Passados trinta anos, nada indica que teremos postos de fuso a frio em vez de postos de gasolina. 
     O fracasso de transpor o exerccio mental para o universo fsico no pode ser visto como desmotivador. Thomas Edison, um dos mais prolferos inventores da histria, constatava: "No falhei 10.000 vezes. Tive sucesso em provar que no funcionam 10.000 inventos". Para Edison, a nica maneira de chegar a algo que funcionasse, e que poderia revolucionar a civilizao, seria falhar, falhar e falhar. Em sua afirmao, ele respondia s crticas por no ter conseguido, como prometera, criar formas de iluminao artificial. Quando fez a lmpada incandescente, revelou que tivera de lidar no com dezenas, mas com milhares de prottipos errados antes de chegar  sua luminosa conquista. 

O TRUQUE DA LEVITAO
Inspirado em um similar do clssico do cinema De Volta para o Futuro II, de 1989, o skate flutuante Slide utiliza como base dois elementos tecnolgicos para planar e realizar manobras: supercondutores e nitrognio lquido. Mas s funciona em pistas com trilhos magnetizados.
1. Ao ser posicionado na pista, o Slide levita pelo fenmeno de "flutuao magntica": os supercondutores interagem com os ims dos trilhos, simulando o efeito de dois polos magnticos de cargas iguais, que se repelem.
2. O nitrognio lquido  liberado aos poucos, o que gera fumaa branca, resfriando os supercondutores a 197 graus abaixo de zero. Com isso, a resistncia eltrica do material chega a praticamente zero e  anulado o efeito do campo magntico formado internamente, preservando-se apenas o externo. Resultado: h estabilizao do efeito de repulso, e o skate sustenta-se no ar, em meio a linhas magnticas formadas pela interao com os ims.
3. O embalo inicial precisa ser dado pelo skatista, com as pernas, mas depois o Slide se move continuamente durante dez minutos, quando acaba o 1,5 litro de nitrognio.

EXPECTATIVA VERSUS REALIDADE
Nem sempre as promessas em torno de tecnologias que surgem se cumprem. Confira em que ponto esto hoje avanos cientficos que h poucas dcadas eram tratados como disruptores, extremamente promissores e como possivelmente cruciais para a vida no sculo XXI - agora que chegamos a ele, a maioria parece supervalorizada. 

A Tecnologia: NITROGNIO LQUIDO
Quando surgiu a promessa: Nos anos 1940
Quais eram as promessas: Ressuscitar corpos congelados, pela tcnica de crioterapia, e servir como combustvel, extremamente potente, em veculos cotidianos.
O que se concretizou:  usado como refrigerador em situaes especiais, distantes do dia a dia, como no armazenamento de rgos para fins mdicos. Na indstria, congela rapidamente alimentos
Viabilidade das promessas no futuro: PEQUENA Em laboratrios e na indstria, no  difcil ter acesso a nitrognio lquido. Mas ele jamais substituir a gasolina no posto, e dificilmente se cumprir a ambio do congelamento de pessoas adoecidas, ou mesmo mortas, para que sejam revividas - apesar de alguns ainda pagarem 200.000 dlares para ter o corpo resfriado

A Tecnologia: SUPERCONDUTORES
Quando surgiu a promessa: Nos anos 1960
Quais eram as promessas: Gerar correntes eltricas infinitas, mesmo sem ter uma fonte contnua de energia.
O que se concretizou: A tecnologia j  amplamente usada em ressonncias magnticas, aceleradores de partculas ou mesmo no skate flutuante da Lexus e em projetos de trens, a exemplo do japons Maglev, prometido para 2027, que deve atingir a velocidade de 600 quilmetros por hora.
Viabilidade das promessas no futuro: MDIA Criar uma corrente de energia infinita  invivel em futuro prximo, j que os cientistas ainda no encontraram um material capaz de realizar o feito. Mas projetos especficos, como o trem japons, ocorrero e grandes centros de pesquisa, como a Nasa, investem no aprimoramento.

A Tecnologia: FUSO A FRIO
Quando surgiu a promessa: Nos anos 1980
Quais eram as promessas: Ao combinar os ncleos de dois tomos de hidrognio, a fuso gera um ncleo mais pesado e libera grande quantidade de energia. Em teoria, o processo seria capaz de alimentar toda a demanda energtica do planeta.
O que se concretizou: Um pesquisador italiano criou um prottipo de catalisador movido pela fuso a frio em 2011. O grande porm: o equipamento  carssimo e gera somente 2% de energia a mais do que consome no processo.
Viabilidade das promessas no futuro: INCERTA Os avanos at agora foram tmidos. Laboratrios de pesquisa avanada estudam, porm, formas de baratear e aprimorar a eficincia energtica, principalmente para que a fuso a frio seja usada na explorao espacial.




5#4 HISTRIA  O INFERNO ATMICO
As bombas lanadas h setenta anos contra Hiroshima e Nagasaki anteciparam o fim da II Guerra e expuseram ao mundo os efeitos da radioatividade.
DUDA TEIXEIRA

     Aps a exploso da bomba atmica na cidade japonesa de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, a revista americana The New Yorker contou o que se passou com o pastor Kiyoshi Tanimoto, da Igreja Metodista, quando tentava levar feridos para o hospital. "Ele dirigiu o barco at a margem do rio e chamou os que estavam ali para subir a bordo. Ningum se moveu, e ele se deu conta de que estavam muito fracos para se levantar. (Tanimoto) desceu e pegou uma mulher pelas mos, mas a pele dela se desfez em grandes pedaos, como uma luva. Ele estava to doente que teve de se sentar por um momento. Ento, entrou na gua e carregou vrios homens e mulheres, que estavam nus, para o barco. Suas costas e peito estavam pegajosos, e ele se lembrou das grandes queimaduras que tinha visto durante o dia: amarelas no comeo, depois vermelhas e inchadas, enrugadas e, finalmente, de noite, supuradas e fedidas... Ele repetia para si mesmo: esses so seres humanos", publicou a revista. 
     Sem que o imperador japons aceitasse a rendio (na Europa, a II Guerra Mundial acabara trs meses antes, com a capitulao alem), em 9 de agosto os americanos lanaram outra bomba atmica, dessa vez sobre Nagasaki. Assim como a primeira, ela gerou ondas de radiao, calor e vento que destruram e incendiaram prdios, deceparam e incineraram corpos e elevaram a temperatura a insuportveis 4000 graus, causando um total de mais de 200.000 mortos nas duas cidades. Ainda seriam necessrios alguns dias para que o imperador Hiroito aceitasse a rendio total. As duas calamidades tambm tiveram como efeito uma reverso completa no expansionismo japons e o incio da era nuclear, caracterizada pela corrida entre vrios pases pela obteno da arma mais letal de todas. 
     As dolorosas histrias contadas pelos sobreviventes e parentes das vtimas esto expostas num museu em Hiroshima, que tambm mostra um triciclo e uma lancheira de metal retorcidos pelo calor. O prdio foi construdo junto ao ponto onde caiu a bomba, em que o Rio Motoyasu e uma ponte formavam um "t". Essa foi a referncia visual para o piloto do bombardeiro B-29. Nesse mesmo rio, habitantes da cidade depositaram na semana passada lanternas de papel para lembrar os mortos. O significado singular de Hiroshima e de Nagasaki, porm, no est somente no nmero de perdas humanas. Durante a II Guerra, outros ataques provocaram danos at maiores. Na campanha area com bombas tradicionais contra cidades do Japo, mais de 300.000 morreram. No bombardeio mais letal, em Tquio, 100.000 perderam a vida nas exploses ou no incndio que tomou a capital, constituda principalmente de casas de madeira e papel. Em Hiroshima, em comparao, 70.000 morreram instantaneamente. O assustador no caso das duas cidades japonesas  que elas praticamente desapareceram com uma nica exploso. A escolha de Hiroshima, alis, foi feita porque era um local de relevo plano, o que ampliou seu potencial destrutivo. Alm disso, sua rea urbana de 5 quilmetros de dimetro parecia adequada para testar o potencial da nova arma. Cerca de 90% da rea foi transformada em runas. Outro aspecto foi o impacto nos corpos humanos, que se prolongou ao longo dos anos. Em 2014, em hospitais de Hiroshima e Nagasaki destinados a sobreviventes, mais de 10.000 pessoas receberam tratamento para cncer, sendo o mais comum o de pulmo. 
     Olhadas atravs da lente histrica de hoje, as duas bombas nucleares lanadas no Japo podem trazer imagens distorcidas. A principal delas  dizer que poderiam ter sido facilmente dispensadas, uma vez que os japoneses estavam a ponto de se render. Segundo essa verso, as mortes teriam sido provocadas apenas por um capricho dos Estados Unidos, desejosos de mostrar seu poder aos soviticos. At aquele instante, o Projeto Manhattan, que desenvolveu a bomba, j tinha consumido 2 bilhes de dlares e envolvido 125.000 pessoas. 
      verdade que a probabilidade de os japoneses vencerem a guerra era mnima, mas no h dvida de que derrot-los de outra forma custaria outro nmero absurdo de vtimas. No plano desenhado pelos Estados Unidos para invadir a ilha do Japo, a Operao Downfall ("Derrocada", em ingls), calculava-se que as perdas americanas poderiam chegar a 1 milho de vtimas. O presidente Harry Truman imaginava que seriam meio milho. O Japo tinha 12.700 avies e 18.600 pilotos e combustvel para milhares de voos suicidas, pilotados por camicases. Para eles, assim como para a maior parte dos japoneses, a noo de morrer pelo imprio era honrosa e garantia uma aprazvel vida aps a morte. Civis foram orientados a atacar invasores, e todos, incluindo mulheres, idosos e crianas, se preparavam com lanas de bambu. Havia tambm lanchas, submarinos e mergulhadores camicases sendo preparados para cumprir a misso. Um aperitivo da carnificina que poderia ocorrer foi dado quando os Estados Unidos tomaram a Ilha de Okinawa, em um combate entre abril e junho de 1945. Os civis tinham recebido granadas e foram encorajados a se explodir diante dos americanos. Cerca de 140.000 pessoas pereceram dos dois lados. 
     Com Hiroshima e Nagasaki, os japoneses se deram conta de que morreriam sem sequer poder lutar honrosamente, como pretendiam. O perigo estava nos cus. "Os militares (japoneses) foram apresentados  incmoda possibilidade de que os americanos poderiam negar a eles a batalha no solo que eles queriam e simplesmente lanar bombas atmicas, contra as quais eles no tinham o que fazer", escreveu o historiador D.M. Giangreco no seu livro Hell to Pay, sobre a Operao Downfall. Ainda assim, a desistncia no foi imediata. Em uma reunio do Conselho Supremo de Guerra, a rendio foi rejeitada veementemente. Os bombardeios ao Japo continuaram at que o imperador Hiroito finalmente cedeu. "Os ministros e lderes militares comearam a chorar", escreve o historiador ingls Antony Beevor, no livro recm-lanado em portugus A Segunda Guerra Mundial (Record). Hiroito decidiu que falaria pelo rdio, um fato indito para um imperador. Na noite de 14 de agosto, conta Beevor, generais tentaram dar um golpe e impedir a fala de Hiroito, sem sucesso. Muitos japoneses choraram por ouvi-lo pela primeira vez. "O inimigo comeou a usar uma nova e cruel bomba, com um poder de destruio ainda incalculvel e capacidade de ceifar muitas vidas inocentes", disse o imperador. Era o fim da II Guerra.  


5#5 ESPECIAL  NDICE UBER (OU COMO MEDIR O APREO OU A AVERSO PELA LIVRE-INICIATIVA)
Pases mais corruptos, mais burocratizados e com maior interferncia do Estado tendem a resistir a inovaes como o aplicativo de caronas pagas. Para medir essa resistncia, VEJA criou o ndice Uber.

     O UBER PROVOCA RESISTNCIA POR onde passa. Em quase todos os 58 pases em que o aplicativo opera, h ou houve protestos clamando por sua proibio. Se voc ainda no foi apresentado a ele, um resumo: o Uber  um servio que conecta, por meio de um aplicativo, motoristas profissionais ou no a passageiros que precisam deles. Ou seja,  uma alternativa de transporte que dispensa a necessidade de intermedirios (sejam eles sindicatos ou governos) e controles oficiais de qualidade, j que os prprios usurios se encarregam da avaliao permanente do servio. Com tantas vantagens, por que ento essa grita em torno dele? 
     Porque, como toda inovao disruptora no curso da histria, o Uber bate de frente com setores que vem vantagens na manuteno de mtodos arcaicos. No caso, os incomodados so os taxistas, que depararam com o que ameaa se tornar um substituto mais moderno de seus servios  ou ao menos uma alternativa a eles. Por isso, manifestam-se, s vezes com violncia: j so diversos os registros de agresses a motoristas e clientes do Uber. Mas o fim dessa histria  conhecido. No passado, avanos como a mquina de tear (o gatilho da Revoluo Industrial), ou mesmo a eletricidade, sofreram com movimentos de resistncia. Em todos os casos, prevaleceu o bom-senso, com vitria do progresso, e no da estagnao. 
     Antes que isso ocorra, porm, o Uber ter de enfrentar uma batalha dura. O aplicativo provocou discusses inflamadas desde seu lanamento, em 2009, em So Francisco, centro da mea tecnolgica do Vale do Silcio. Houve protestos e tentativas, por parte dos taxistas, de lanar o servio na ilegalidade. Em entrevista a VEJA, o estrategista poltico americano David Plouffe, que em 2008 foi coordenador da campanha do presidente Barack Obama e em 2014 assumiu como vice-presidente e, depois, conselheiro do Uber, definiu como natural a reao: "Toda regulamentao urbana foi feita antes de surgirem smartphones, tablets e aplicativos. Precisamos adaptar as leis, e o problema no  s com o Uber. H, por exemplo, o Airbnb (pelo qual se alugam cmodos, casas e apartamentos para turistas). A legislao tem de correr atrs das novidades". 
     Nos Estados Unidos, pas de tradio liberal, a luta no tem sido to difcil. O ineditismo estimulou protestos como os que tomaram ruas de Nova York e da capital, Washington. As respostas dos governos municipais, porm, foram rpidas e ponderadas. Confrontadas com a inexistncia de uma legislao especfica para receber a startup californiana, 52 cidades criaram uma, oito j deram incio ao processo e as demais sinalizam que seguiro o mesmo caminho (a exceo  o Estado de Nevada, historicamente corrupto e avesso a novidades). Nos EUA,  cada vez menos visvel o esteretipo do taxista grosseiro, um tipo exagerado e no to comum na vida real  magistralmente representado por Travis Bickle, o personagem de Robert De Niro no violento Taxi Driver, clssico de Martin Scorsese. Em vez dele, popularizou-se a figura do motorista que veste terno, oferece bala e gua mineral aos passageiros, no faz caminhos mais longos para aumentar a tarifa e chega rpido, em carro novo, limpo e confortvel. 
     A qualidade do servio deve-se menos  tecnologia do que aos princpios em que se baseia o aplicativo. Assim que chama um carro do Uber, o cliente sabe quem  o motorista e qual a avaliao que ele recebeu dos outros passageiros  quem tem nota abaixo de 4,6 num ranking que vai at 5 fica impedido de trabalhar. O aplicativo permite ao cliente saber em quanto tempo ser atendido, quanto custar o percurso e qual ser a durao do trajeto, considerado o trnsito. Na ndia, est em testes um boto de alerta para avisar se o motorista cometer irregularidades. Alm de os casos serem raros,  fcil solucion-los. No mesmo minuto, sabe-se quem  o motorista e o que ele fez  e as autoridades so acionadas. 
     O caso Uber  mais uma demonstrao de que certos modelos de negcio, mesmo oferecendo bvias vantagens, suscitam enorme resistncia no mundo. Para mediar essa fora que atravanca o progresso, VEJA criou o "ndice Uber". Para isso, cruzou e somou dados que medem nveis de burocracia, corrupo e interferncia estatal em vinte pases. A concluso a que chegou  notvel. Nos pases em que a burocracia  maior, o governo  mais corrupto e o Estado mais pesado, a reao ao aplicativo, seja na forma de protestos, seja na de proibies, foi maior. O inverso tambm se mostrou verdadeiro. Quanto menos frequentes so os registros de corrupo num pas e mais leve a mo do Estado, menos problemas o Uber enfrenta para se estabelecer. Do lado dos resistentes  inovao esto, por exemplo, Brasil, ndia e China. No grupo dos que recebem a novidade com ponderao, ou de portas abertas, alinham-se Estados Unidos, Nova Zelndia e Japo. Como postou em seu perfil no Twitter o ingls Paul Graham, icnico empreendedor da indstria digital: "O Uber  to obviamente uma coisa boa que  possvel medir quo corruptas so as cidades pela intensidade com que tentam suprimi-lo". 
     H aparentes excees  regra. Da turma que no  afeita a inovaes, salta aos olhos a Alemanha, pouco corrupta ou burocrtica, mas onde parte dos servios do Uber  ilegal. A explicao: l sobressaram a fora extrema de sindicatos e uma poltica de Estado benevolente (caractersticas tpicas da maioria das naes europeias), que alimentaram protestos e levaram  proibio do aplicativo. Em outras palavras, ganhou o peso estatal. Entre os exemplos positivos, destaca-se o Mxico. Apesar de tratar-se de um pas de altssimos nveis de corrupo e burocracia, no ms passado a capital, Cidade do Mxico, foi a primeira da Amrica Latina a regularizar o servio. Segundo as novas regras, os motoristas pagaro 1,5% de imposto por corrida, devero arcar com uma permisso anual de 100 dlares e, ainda, s podero trabalhar com carros de preo mnimo de 12.650 dlares. 
     Mas do que tanto reclamam os taxistas? A maior queixa  que os motoristas do Uber no pagariam impostos nem (principalmente) a licena de txi, o chamado alvar, no Brasil. O que no quer dizer que no sejam tributados. Diferentemente do que ocorre com taxistas, os profissionais brasileiros do Uber arcam com o IPVA do carro e no tm desconto na compra de automvel. Alm disso, pagam taxas por corrida efetuada, sendo que sempre  gerada uma nota fiscal digital, enviada ao cliente por e-mail, a cada trajeto realizado. Pela licena, no se paga, e  assim em quase todo o mundo, por no haver lei para tal. Isso porque a maioria das legislaes de transporte urbano foi criada nos anos 60, antes do advento da internet. "So regulamentaes que s faziam sentido nos velhos tempos, quando se entrava em um txi sem saber se o motorista era perigoso, e o governo nos protegia", disse a VEJA Catherine Tucker, professora de marketing do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). "Hoje, monitoramos a qualidade com a coleta de dados digitais." 
     Logo, no  que se quer um mundo sem regras. At porque, no Brasil, se as mesmas valessem para taxistas e para o Uber, os motoristas do aplicativo sairiam em vantagem, pagando menos para trabalhar, a mdio prazo. O que se espera  que novas leis, modernas, surjam para receber inovaes. E o Uber parece aberto a discusses. Por exemplo, aceitou de pronto as regras estabelecidas na Cidade do Mxico e no deve se opor caso prevalea a deciso da Comisso Trabalhista da Califrnia, nos Estados Unidos, que determinou que motoristas do app so funcionrios, e no apenas parceiros, e, por isso, devem receber certos benefcios. 
     S que o debate racional no tem prevalecido naqueles pases de elevado "ndice Uber" e, portanto, corruptos e burocrticos. "Ao prover servio de transporte remunerado de forma transparente, o Uber expe os problemas do oligoplio de txi", analisou o cientista da computao paraibano Silvio Meira, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundao Getulio Vargas. "Lutar contra o Uber  defender o transporte de passageiros com charrete", acrescentou. Os txis brasileiros, e assim  tambm na maior parte do mundo, se baseiam em um sistema de licenas limitadas. Em So Paulo, um desses alvars pode custar 200.000 reais, o que torna o acesso proibitivo para novatos, sem esse montante. O que ocorreu foi o estabelecimento de uma mfia, composta de empresrios que detm mltiplas licenas e as aluga, por dirias ilegais de 200 reais, aos taxistas. 
      esse grupo que tem instigado a maioria dos protestos nas quatro cidades nacionais em que o Uber est presente  So Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Braslia. A investida tem sido  fora. Taxistas quebraram carros do Uber e vm impedindo que eles cheguem a aeroportos. Em Braslia, por exemplo, na semana passada, fizeram um casal sair de um automvel do Uber e o motorista pegar as malas e transferi-las para um txi. Os clientes foram obrigados a utilizar esse modo de transporte para seguir viagem. "Nos Estados Unidos, o servio comeou, houve debate racional, seguido de regulamentao", analisa o advogado Ronaldo Lemos, um dos mentores do Marco Civil da Internet brasileira. "O que me preocupa  que aqui a reao tem sido s violenta. O que isso revela sobre o ambiente de negcios no pas?" 
     Com ou sem reclamaes, tudo indica que o Uber  daquelas inovaes que vieram para ficar. Hoje, o aplicativo realiza 1 milho de viagens dirias em mais de 320 cidades. Na semana passada, reafirmou-se como a startup mais valiosa do planeta, com valor estimado em 51 bilhes de dlares  o mesmo, por exemplo, da tradicional fabricante de carros General Motors. Para os prximos anos, o Uber reserva transformaes ainda mais radicais. Pretende nem ter motoristas nos carros, substituindo-os por frotas automatizadas, o que certamente gerar protestos. 
     A sina do Uber  a mesma enfrentada por outras inovaes histricas. No sculo XV, a criao da prensa pelo alemo Johannes Gutenberg sofreu resistncia de escribas e legisladores, amedrontados com a indita possibilidade de replicar em larga escala livros, jornais e revistas, o que permitiu que o conhecimento no mais fosse de controle da elite. Logo se notaram as bvias vantagens e surgiram leis capazes de liberar e regular a novidade. No sculo XVIII, a mquina de tear, ignio da primeira Revoluo Industrial, irritou trabalhadores do campo. Mas prevaleceram as melhorias trazidas pela indstria nascente. Nos idos de 1880, quando a luz eltrica comeou a se tornar popular, as empresas de gs conseguiram mant-la fora de Londres por quase uma dcada. Ao final, ficou claro que as vantagens da eletricidade eram superiores aos interesses dos que dominavam a indstria de gs e ningum poderia impedir a transio. 
     Hoje, quem viveria sem livros, produtos industriais ou eletricidade? No futuro, viveremos sem Uber? "Depois que o app chega  muito difcil livrar-se dele por um motivo simples: trata-se de um timo servio", pontua o administrador americano Brent Goldfarb, professor da Universidade de Maryland. A inovao vence a burocracia, a corrupo e a mo pesada do Estado ao oferecer algo que ningum sabia ser necessrio, mas que depois ningum vive sem. Como dizia Steve Jobs (1955-2011), fundador da Apple: "Muitas vezes, as pessoas no sabem o que querem at mostrarmos isso a elas". Nessas horas, cabe ao Estado apenas olhar de longe, abrir caminho e no congestionar o trnsito. 

OS PASES COM ESTADO MAIS INCHADO...
Quanto menor a nota, de 0 a 30 (nenhum tirou mais que 20), menos corrupta, burocratizada e estatal  a nao.
DE 15 A 20 PONTOS: BRASIL, China, Grcia e ndia.
DE 10 A 14 PONTOS: frica do Sul, Colmbia, Espanha, Frana, Itlia, Mxico e Tailndia.
DE 5 A 9 PONTOS: Alemanha, Canad, Coreia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, Inglaterra, Japo e Singapura.
DE 0 A 4 PONTOS: Nova Zelndia
O ndice Uber usou a soma de trs medidas para chegar a um ranking de pases: a corrupo, de acordo com uma listagem produzida pela organizao Transparncia Internacional; a burocracia, medida pelo relatrio Doing Business, sobre a facilidade de fazer negcios nos pases, elaborado pelo Banco Mundial; e a interferncia do Estado na economia, relacionada  liberdade econmica das naes, em levantamento da Heritage Foundation.

...TENDEM A SER MAIS RESISTNTES AO UBER
NDICE DE REJEIO
MXIMA - O aplicativo foi proibido, a empresa banida ou houve manifestaes contrrias extremamente violentas.
INTENSA - Chegou a ser ilegal, mas as operaes prosseguiram, apesar dos protestos.
MODERADA - No foi banido, mas houve tentativas de proibi-lo e/ou protestos consideravelmente violentos.
LEVE - Aconteceram protestos, sem violncia. No surgiram tentativas generalizadas de proibio e h discusses para regulamentar.
NENHUMA - O pas aceitou e regularizou o aplicativo em poucos dias.

Quanto menor a nota de cada critrio abaixo - de 0 a 10 , melhor o pas se saiu
(o ndice Uber  a soma dos trs elementos)
BUROCRACIA: 
CORRUPO: 
INTERFERNCIA DO ESTADO NA ECONOMIA: 
NDICE UBER: 

Onde a briga  feia...

BRASIL
ndice de rejeio: INTENSA
Taxistas protestaram nas quatro cidades em que o aplicativo j  usado. Em votao, os vereadores de So Paulo optaram pela proibio. Considerando a hiptese de o Uber no ser banido, o presidente de um dos sindicatos fez uma ameaa: "Vai ter morte".
Burocracia: 7
Corrupo: 6
Interferncia do estado na economia: 5
NDICE UBER: 18

CHINA
ndice de rejeio: MODERADA
Protestos ocorreram em pelo menos cinco metrpoles. No papel,  ilegal em Pequim, s que continua operando normalmente. A China se tornou o maior mercado do aplicativo depois dos EUA.
Burocracia: 6
Corrupo: 7
Interferncia do estado na economia: 5
NDICE UBER: 18

ESPANHA
ndice de rejeio: MXIMA
Depois de protestos massivos de taxistas, a Justia espanhola baniu de vez o aplicativo com o argumento de que a operao no estava de acordo com leis locais.
Burocracia: 3
Corrupo: 4
Interferncia do estado na economia: 4
NDICE UBER: 11

...e onde o bom-senso vence

ESTADOS UNIDOS
ndice de rejeio: LEVE
O Uber foi criado em So Francisco e em cinco anos alcanou mais de 50 cidades. Houve resistncia, dado o ineditismo, como em Nova York, mas foi pontual e as manifestaes no ganharam fora nacional, por causa da tradio liberal do pas.
Burocracia: 1
Corrupo: 4
Interferncia do estado na economia: 3
NDICE UBER: 8

NOVA ZELNDIA
ndice de rejeio: NENHUMA
O governo encarou a situao da maneira ideal: liberou o servio at regulariz-lo de vez, delimitando quais sero os impostos e as regras para o aplicativo.
Burocracia: 1
Corrupo: 1
Interferncia do estado na economia: 2
NDICE UBER: 4

O QUE SAI MAIS CARO
Taxistas reclamam de pagar alvar. Motoristas do Uber, de no ter iseno de impostos. Na ponta do lpis, os principais custos, em So Paulo, por dez anos de trabalho, para ser...
...taxista
PARA OPERAR 180.000 reais (soma do aluguel mensal do alvar por dez anos)
COMPRA DO CARRO (COROLLA NOVO, TROCADO A CADA TRS ANOS) 218.616 reais (paga 20% menos, por iseno de impostos)
IPVA Zero (isento)
PARA CONTINUAR A TRABALHAR 1856 reais (soma do valor do seguro anual obrigatrio com o da taxa paga a cada cinco anos para renovar o cadastro de taxista)
TOTAL PARA DEZ ANOS (EM ESTIMATIVAS) 400.472 reais

...motorista do Uber
PARA OPERAR Zero (no precisa de alvar)
COMPRA DO CARRO (COROLLA NOVO, TROCADO A CADA TRS ANOS) 279.966 reais (no tem iseno de impostos)
IPVA 28.000 reais (soma do valor anual por dez anos)
PARA CONTINUAR A TRABALHAR 188.000 reais (soma do valor do seguro mnimo exigido com o da taxa de at 20% paga ao Uber por corrida)
TOTAL PARA DEZ ANOS (EM ESTIMATIVAS) 495.960 reais

O MAPA-MUNDI DA PROIBIO
Exemplos de pases onde o Uber sofre para operar, sendo submetido a banimentos ou tentativas de proibio. Nesses locais, passageiros tm dificuldade para utilizar o servio  em alguns casos, como o da semana passada em Braslia, taxistas revoltos chegam a agredir motoristas e clientes do aplicativo.

BANIDO: Espanha
NO  LEGALIZADO: Panam, Colmbia, Peru, Chile, Brasil
Frana, Polnia, Romnia, Jordnia, Qunia, ndia, China, Coreia do Sul, Taiwan, Tailndia, Indonsia, Austrlia.
PARCIALMENTE BANIDO (Servios especficos, como o de motoristas profissionais, funcionam): frica do Sul, Holanda, Itlia.

UM MODELO QUE D DINHEIRO
Das cinco startups  empresas novatas, normalmente do setor de tecnologia  mais valiosas dos Estados Unidos, duas (as lderes) investem no modelo de economia compartilhada, em que o cliente tem contato direto com o fornecedor, sem interventores estatais ou privados
(VALORES EM DLARES)

1 UBER
VALOR DE MERCADO 51 bilhes [*estimativa]
FUNDADO EM 2009
QUANTO ARRECADOU DE INVESTIDORES 6,9 bilhes
FATURAMENTO EM 2014 800 milhes
O QUE FAZ Compartilhamento/aluguel de transporte particular

2 airbnb
VALOR DE MERCADO 26 bilhes [*estimativa]
FUNDADO EM 2008
QUANTO ARRECADOU DE INVESTIDORES 2,3 bilhes
FATURAMENTO EM 2014 450 milhes
O QUE FAZ Compartilhamento/aluguel de hospedagem particular

3 Palantir
VALOR DE MERCADO 20 bilhes [*estimativa]
FUNDADO EM 2004
QUANTO ARRECADOU DE INVESTIDORES 1,6 bilho
FATURAMENTO EM 2014 600 milhes
O QUE FAZ Servios de big data para o governo americano e para clientes privados, principalmente do setor financeiro

4 Snapchat
VALOR DE MERCADO 16 bilhes [*estimativa]
FUNDADO EM 2011
QUANTO ARRECADOU DE INVESTIDORES 1,2 bilho
FATURAMENTO EM 2014 Zero
O QUE FAZ Aplicativo de troca de mensagens

5 SPACEX
VALOR DE MERCADO 12 bilhes [*estimativa]
FUNDADO EM 2002
QUANTO ARRECADOU DE INVESTIDORES 1,2 bilho
FATURAMENTO EM 2014 825 milhes
O QUE FAZ Misses para o espao, em parceria com agncias governamentais como a Nasa.
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6# ARTES E ESPETCULOS 12.8.15

     6#1 TELEVISO  ESPRITO ANIMAL
     6#2 CINEMA  COR DE BURRO QUANDO FOGE
     6#3 CINEMA  RETRATO RETOCADO
     6#4 VEJA RECOMENDA
     6#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     6#6 J.R. GUZZO  VELRIO EM CMERA LENTA

6#1 TELEVISO  ESPRITO ANIMAL
H quase seis dcadas a rede inglesa BBC  referncia mundial nos programas sobre a natureza. A chave de seu xito: entreter, sem abdicar do rigor cientfico e da inovao.
MARCELO MARTHE, DE BRISTOL

     Em uma sala da Unidade de Histria Natural da BBC, na cidade inglesa de Bristol, o produtor com jeito de nerd exibe seu novo campo de batalha intelectual. No quadro coberto de rabiscos sobre vrias espcies, de pinguins a chimpanzs, uma anotao surge em realce: "Dynasty = Game of Thrones animal". Com lanamento provvel em 2018, Dynasty (Dinastia) vem a ser a prxima superproduo sobre bichos de um dos maiores especialistas mundiais na matria. J a meno  srie de fantasia da HBO entrega aquilo que o produtor Mike Gunton quer oferecer no futuro programa. "Vamos seguir os passos de diversos cls animais para mostrar que a luta pelo poder na natureza tem lances to espetaculares quanto os que se vem na fico", diz Gunton. A cena flagrada por VEJA na maior central de produo de documentrios sobre natureza do planeta diz mais do que se suspeitaria sobre o gnero. Ao longo de quase sessenta anos, tais programas evoluram dos montonos registros em preto e branco de lees na savana a uma profuso de subgneros que vai dos reality shows a produes com padro hollywoodiano. A concorrncia tornou-se feroz: desde a tradicional sociedade americana National Geographic at canais como o Discovery e seu derivado Animal Planet, passando pela Disney, inmeras potncias disputam hoje um naco do segmento lucrativo. O servio de vdeos on demand Netflix j anunciou que nos prximos anos vai entrar no jogo. Mas  a BBC que continua ditando o padro-ouro de inovao e credibilidade na seara. Os brasileiros ganharo um apanhado de suas 150 horas de produo anual sobre o tema com a chegada do canal BBC Earth a vrias operadoras a partir de 1 de setembro. Para alm da quantidade, os documentaristas da BBC revelam-se imbatveis na alquimia complexa de fazer da observao dos bichos uma fonte de entretenimento. 
     Uma grande produo da rede inglesa, como Planeta Terra (2006), chega a atrair audincia global na casa dos 500 milhes de pessoas. No Brasil, um estudo da prpria BBC mostra que 55% dos espectadores entre 16 e 65 anos vem com frequncia atraes do gnero. Mas, ao mesmo tempo em que a empatia atvica dos humanos pelos bichos  um chamariz irresistvel, a explorao continuada do tema amplia os desafios para cativar o pblico.  rarssimo aparecer uma nova espcie para mostrar no ar. "Quando aparecem, so no mximo insetos e outros bichos nada carismticos", diz Wendy Darke, chefe da unidade de documentrios naturais da BBC. Os produtores tm de arrancar leite de pedra, pois os enredos no so numerosos: feras saindo  caa, aves em busca de filhotes desgarrados, e por a afora. 
     Some-se a isso uma injuno dos tempos atuais: para atrair a juventude ligada nos videogames e reality shows, muitos canais no resistem  tentao de abusar dos expedientes heterodoxos. Um certo naturalismo radical que preconiza a aproximao perigosa com bichos selvagens entrou em baixa depois que o apresentador australiano Steve Irwin, do programa O Caador de Crocodilos, levou uma ferroada fatal de uma arraia, em 2006 (veja o quadro). Mas empreitadas duvidosas ainda vicejam. Meses atrs, o Discovery americano exibiu Eaten Alive, documentrio em que o apresentador Paul Rosolie, metido em uma roupa especial, se propunha a ser devorado por uma sucuri. A acusao de maus-tratos ao rptil, assim como a enganao contida no ttulo (Rosolie era apenas atacado pela cobra), causou estrago  imagem do Discovery. "Jamais faramos algo assim. No queremos acabar nos tabloides", diz Wendy Darke. O Animal Planet tambm ultrapassou a fronteira que separa entretenimento de empulhao ao dar a entender, em um programa de "histria natural", que sereias existem. 
     Uma das armas da rede inglesa para permanecer popular sem pisar em terreno pantanoso  dar cara nova ao bsico com o auxlio da tecnologia. Para captar a vida dos bichos por ngulos originais, incorporam-se equipamentos de vigilncia militar e outros ainda mal testados por Hollywood. O marco foi Planeta Terra, que usou cmeras que permitiam flagrar com resoluo espantosa animais a grandes distncias. Pois agora Life Story, a principal atrao da estreia do BBC Earth no Brasil, prova que as coisas evoluram de uma dcada para c. "Hoje podemos captar os animais cada vez mais de perto", diz Gunton. Os bichos que estrelam Life Story  do polvo espertalho que, na Indonsia, usa cascas de coco como armadura  ninhada de tigres indianos que passam por uma educao violenta  parecem, de fato, assustadoramente prximos do espectador. Na busca pela imagem nica, os produtores podem usar drones, helicpteros e at uma microcmera com o tamanho de um comprimido  eis a forma como o naturalista que conduz outra srie da BBC, Infested!, revela os estragos causados por parasitas em seu prprio organismo. Um dos lastros para no perder a compostura ao flertar com ideias bizarras assim  o contato estreito com a comunidade cientfica. "Todas as informaes so checadas por especialistas", diz Wendy Darke. " um mundo pequeno. Todos se conhecem." Como muitos produtores, Wendy tem formao cientfica:  zoologista com Ph.D. em corais. A relao entre a BBC e os estudiosos  simbitica. Eles fornecem seus conhecimentos e, em troca, vem aquilo que s vezes foi fruto de anos de trabalho ser registrado pela primeira vez em imagens. 
     A unidade comandada por Wendy est sediada desde 1957 em Bristol  o que fez da cidade de 440.000 habitantes no sudoeste da Inglaterra um polo mundial dos programas sobre bichos. O mercado de produtoras-satlite da BBC tambm  concorrido. Na mesma Bristol est situada a companhia que produz o inslito Monstros do Rio, sucesso do rival Discovery (veja o quadro). L tambm fica a Silverback, produtora de Alastair Fothergill, criador de Planeta Terra, que  responsvel tanto pela primeira investida do Netflix no setor, Our Planet, quanto pelo prximo grande lanamento da BBC, a srie The Hunt. Nela, o time do naturalista Huw Corney eleva em mais um patamar a excelncia das imagens, ao documentar animais caando com agilidade nunca vista. Mas o que faz a fora dos documentrios da BBC, lembra Huw,  um elemento que independe da tecnologia ou da cincia: as boas histrias. "Em The Hunt, queremos ir alm dos clichs e mostrar que predadores tambm sofrem e so falhos", diz ele. Na natureza, enfim, no faltam drama, suspense, comdia. Para triunfar no livre mercado dos documentrios, basta liberar o esprito animal. 

CAADORES QUE VIRARAM CAA
Os profissionais que fazem programas sobre a natureza precisam seguir certos parmetros: devem ter conhecimento profundo sobre os animais e avaliar at que ponto podem se aproximar deles. "Respeito  essencial", diz o naturalista Huw Cordey. Infringir essa norma do bom-senso resulta em reveses trgicos. O americano Timothy Treadwell, documentarista diletante, passou vrios veres junto aos ursos-pardos no Alasca, at o dia em que a natureza ps abaixo, com fria, sua iluso de que seria quase um semelhante deles: em 2003, Treadwell e a namorada foram devorados por um urso. A morte do australiano Steve Irwin, trs anos depois, dinamitou a ideia muito em voga em programas da poca de que o naturalista seria um esportista radical. Ao chegar perto de uma arraia, ele levou uma ferroada no corao. O naturalista deve amar animais  mas no pode esperar que eles o amem. 

E L VEM HISTRIA DE PESCADOR
Anos atrs, ao tentar domar no muque um rebelde pirarucu, peixe de grandes dimenses da Amaznia, o ingls Jeremy Wade levou uma cabeada no meio do peito. "Na hora, achei que iria morrer do corao. Foram seis semanas de dores lancinantes", diz ele. A m recordao do acidente ocorrido durante uma visita  brasileira Manaus no diminuiu o amor do pescador e zologo solteiro, de 59 anos, por bichos que lembram as criaturas pavorosas dos quadros do pintor flamengo Hieronymus Bosch (1450-1516). No programa Monstros do Rio, Wade roda o mundo  caa de espcies raras e arredias que habitam as profundezas das guas doces. Invariavelmente, com perdo aos apreciadores do pirarucu, trata-se de uns bichos muito, muito feios. Na stima temporada da atrao, que estreou no Discovery nacional na semana passada, Wade volta ao Brasil para investigar o mistrio da suposta interferncia de um desses seres estranhos no naufrgio de um grande barco no Rio Amazonas. Com trilha sonora meio ttrica e narrao carregada de drama, Monstros do Rio tornou-se uma prola trash muito cultuada na grade da TV paga. A cada episdio, o apresentador conduz uma investigao detetivesca a partir de uma lenda de pescador. No programa, ele muitas vezes passa horas ou at dias com a vara de pescar na mo, esperando que seu objeto de estudo morda a isca. Depois de peg-lo, Wade posa com o trofu para a cmera e solta o peixe na gua de novo. "As pessoas gostam de ver na TV coisas que parecem perigosas. Mas tudo o que fao  com risco controlado", diz. Na verdade, a pergunta que fica  outra: seriam aqueles monstros to assustadores assim? Com a palavra, o especialista: "Acredito que todo pescador tenha a tendncia de exagerar um pouco". 


6#2 CINEMA  COR DE BURRO QUANDO FOGE
O Quarteto Fantstico carece completamente de personalidade. A histria boa  a dos bastidores da produo.

     Entre os vrios negcios que a Marvel fez muito antes de abrir o prprio estdio e virar uma superpotncia da bilheteria, um em particular di no seu corao: a cesso dos direitos cinematogrficos sobre os X-Men e o Quarteto Fantstico  Fox, nos anos 90. Os dois grupos de heris eram, ento, o patrimnio mais valioso da Marvel; foram barganhados numa fase de vacas magras. Quando a Fox faz um filme com eles, o estdio Marvel no tem direito a palpite. A julgar pelas histrias que cercam Quarteto Fantstico (Fantastic Four, Estados Unidos, 2015), j em cartaz no pas, o descontentamento com esse arranjo pode ter virado briga de bar. E sua primeira vtima  o prprio filme, a mais rgida, fria e desanimada aventura com super-heris da ltima dcada  pior at que os Quarteto Fantstico cafonas de 2005 e 2007, que esta nova produo pretendia despachar para o esquecimento. 
     Para relanar os personagens Senhor Fantstico, Tocha Humana, O Coisa, Mulher Invisvel e Doutor Destino, a Fox recorreu a um elenco de crdito pop: Miles Teller (de Whiplash), Michael B. Jordan (Fruitvale Station), Jamie Bell (Ninfomanaca), Kate Mara (House of Cards) e Toby Kebbell (Rock'n'Rolla). Recorreu, principalmente, a um diretor que, em 2012, despontou como um talento genuno: Josh Trank, de Poder sem Limites, um filme baratinho e imensamente original sobre trs garotos que adquirem poderes telecinticos. H cerca de um ano, porm, comearam a circular rumores de que Trank ia muito mal. Seus ces teriam arruinado uma casa alugada pelo estdio, deixando um prejuzo de 100.000 dlares. Ele estaria se comportando de forma errtica no set e isolando-se da equipe e do elenco. Muito do material filmado seria inaproveitvel, obrigando a desviar-se o oramento do 3D para filmagens adicionais conduzidas por Matthew Vaughn, o diretor de X-Men  Primeira Classe. "Rumores", porm,  uma palavra-chave: todas essas informaes foram atribudas a "fontes no reveladas"  o que no raro significa fofoca pura e simples. 
     Agora, outro rumor vem se juntar a esses: o de que os comentrios negativos sobre Trank teriam sido exagerados ou mesmo plantados como parte de uma campanha da Marvel para solapar o filme e levar a Fox a desistir de seus direitos. "Fontes no reveladas" tm papel preponderante tambm nessas alegaes  assim como nas histrias de que, na Marvel Comics, o quarteto virou assunto tabu e estaria sendo apagado dos anais da editora. Uma coisa, pelo menos,  concreta: h alguns meses, numa deciso de timing intrigante, a Marvel anunciou o cancelamento dos gibis do Quarteto Fantstico. Mas o que de fato d credibilidade  tese de uma disputa corporativa to intensa que teria contaminado todas as etapas do processo  o filme em si, um produto neutro e impessoal no qual no se detecta nenhum vestgio da personalidade comprovadamente exuberante de seu diretor  nem para o bem, nem para o mal.


6#3 CINEMA  RETRATO RETOCADO
Dama Dourada mostra como uma velha viva chacoalhou a ustria e tambm o mundo da arte e o do direito. Uma histria espetacular, que no precisava de uma demo ficcional.

  1938, e a ustria foi anexada pela Alemanha de Hitler. Um grupo de agentes da polcia secreta nazista invade um apartamento em Viena e exige da famlia as suas joias, apossa-se de um violoncelo Stradivarius e arranca das paredes a coleo de arte dos proprietrios, os irmos Ferdinand e Gustav Bloch-Bauer, judeus e donos de uma refinaria de acar. Entre os quadros roubados, encontram-se cinco telas de Gustav Klimt, pintadas sob o patrocnio de Ferdinand: trs paisagens e dois retratos. Em 1941, elas j estaro no acervo da Galeria Nacional Austraca. Um dos quadros, em particular, ter pela frente uma trajetria ilustrssima: Retrato de Adele Bloch-Bauer I, uma maravilha folheada a ouro, vai virar a pea mais visitada do Palcio Belvedere de Viena e um orgulho nacional. E, a partir de 1998, vai tambm protagonizar a mais clebre disputa em torno da repatriao da arte roubada pelos nazistas, movida por uma judia octogenria que naquele mesmo 1938 fugiu de Viena rumo a Los Angeles  Maria Altmann, filha de Gustav Bloch-Bauer e sobrinha de Adele, a mulher de olhar grave que Klimt imortalizou no quadro de 1907. Essa  a histria que Dama Dourada (Woman in Gold, Estados Unidos/Inglaterra, 2015), em cartaz a partir desta quinta-feira, quer contar  e conta, mais ou menos, quando no est tentando ser uma verso de Conduzindo Miss Daisy com Helen Mirren no papel de Maria Altmann e Ryan Reynolds como E. Randol Schoenberg, seu jovem advogado, que ganhou na Suprema Corte americana o direito de processar a ustria. 
     O percurso do quadro  to espetacular que j foi objeto de pelo menos trs documentrios e dois livros. Dispensa qualquer retoque ficcional para se tornar mais arrebatador; o filme, porm, edulcora certos detalhes, exagera alguns dramas (como a fuga de Maria e seu marido, Fritz Altmann, transformada numa perseguio pelas ruas de Viena) e suprime outros (como a priso de Fritz no campo de concentrao de Dachau at seu irmo transferir sua indstria txtil para os nazistas). J a reduo da importncia do jornalista austraco Hubertus Czernin (1956-2006) no episdio  francamente injusta. 
     Na dcada de 80, Czernin exps o passado nazista de Kurt Waldheim, ex-secretrio-geral da ONU  um escndalo internacional que, no entanto, no impediu que Waldheim se elegesse presidente da ustria em 1986. Nos anos 90, Czernin debruou-se sobre a questo da arte roubada e comeou direto pelo Retrato de Adele. Descobriu que antes de morrer, em 1925, Adele realmente pedira que os quadros de Klimt fossem doados ao acervo pblico de Viena. Mas as autoridades austracas estavam escondendo dois fatos cruciais. Primeiro, Adele estipulava que os quadros fossem doados aps a morte do marido. Ora, Ferdinand morreu em 1945  mas a "doao" j fora feita em 1941 (em um documento encabeado pela saudao "Heil, Hitler!"). Segundo, Ferdinand, o real proprietrio dos quadros, deixara-os em testamento a seus herdeiros, entre os quais Maria Altmann. 
     Com sua investigao, Czernin abriu caminho para as leis sobre a restituio de arte e obrigou a ustria a um teste de fogo ao, juntamente com Schoenberg, encorajar Maria a lutar por sua herana. Vrias vezes, Maria ofereceu deixar as obras em Viena mediante uma admisso pblica do malfeito e reparao financeira, mas o governo austraco mostrou-se irredutvel. "Foi triste ver todas aquelas pessoas contorcendo-se para fazer a coisa errada, exatamente como haviam feito sob os nazistas", resumiria depois Schoenberg. Tudo terminou numa arbitragem em Viena, na qual, para surpresa geral, se decidiu a favor de Maria. Em 2006, o Retrato de Adele Bloch-Bauer I foi leiloado na Christie's e arrematado por Ronald Lauder, herdeiro da marca de cosmticos, por 135 milhes de dlares  na poca o mais alto valor j pago por uma tela. Desde ento est exposto na Neue Galerie de Nova York, de propriedade de Lauder. Dama Dourada v isso como um triunfo, sem perceber quanto h de amargo nele: muito mais glorioso seria Adele ter permanecido na ustria para l ser admirada em toda a beleza de seu brilho bizantino, e na extenso completa de seu sobrenome judeu.

BRILHO ENGANOSO...
Como o filme Dama Dourada distorce a histria da herdeira do famoso Retrato de Adele Bloch-Bauer I, do austraco Gustav Klimy.
No filme...
Maria Altmann lembra-se da tia Adele (Antje Traue) como uma mulher doce e maternal.
Na realidade...
Maria a descreveu como uma mulher fria e nervosa, magra demais e fumante compulsiva.
No filme...
O jornalista Hubertus Czernin (Daniel Bruhl) d a Maria e seu advogado uma pista sobre como achar o testamento de Adele e o de seu marido, Ferdinand
Na realidade...
Czernin fez bem mais: sua investigao mostrou que as autoridades austracas haviam deliberadamente maquiado seu direito legal ao quadro. Esse foi o estopim no s do episdio, mas da aprovao da Lei de Restituio da Arte na ustria
No filme...
Maria parece no ter filhos - est sempre sozinha - e sustenta-se de maneira muito modesta. Seu advogado, E. Randol Schoenberg, mal e mal tem como pagar as contas durante todos os anos do processo
Na realidade...
Maria tinha quatro filhos, vivia com conforto e, em 2005, ganhou junto com outros herdeiros dos Bloch-Bauer uma indenizao de 21 milhes de dlares pela perda do negcio da famlia durante a guerra. Schoenberg teve de aguentar s um ano de penria: quando o caso se tornou notrio, ganhou sociedade em uma firma.


6#4 VEJA RECOMENDA
TELEVISO 
EMPIRE (ESTREIA NESTA QUARTA-FEIRA, s 22H30, NO FOX LIFE)
 A vida de Lucious Lyon (Terrence Howard)  um milagre do empreendedorismo americano: negro e pobre, ele se converteu de marginal que traficava drogas em dolo do gangsta rap e dono de gravadora. Mas  na meia-idade que o leo enfrentar sua maior batalha: ao saber que sofre de uma doena degenerativa fatal, ele ter de escolher um sucessor entre seus trs filhos. O combustvel deste novo campeo de audincia da TV americana  o ncleo familiar explosivo, no qual se distingue sua ex-mulher, Cookie (Taraji P. Henson). Figura barraqueira, Cookie sai da priso para reclamar seus direitos sobre a gravadora e comprar a briga sucessria em favor do filho do meio  que  talentoso mas gay, para a fria do empresrio homofbico. Com roteiro de Lee Daniels (do filme Preciosa) e produo musical de Timbaland, Empire tem um qu do novelo dos anos 80 Dinastia. Mas seu DNA  mais nobre: trata-se de uma verso negra e incrivelmente acertada de O Leo no Inverno, pea adaptada para o cinema nos anos 60, sobre um monarca ingls s voltas com sua sucesso  e, como esta, tambm bebe do Rei Lear de Shakespeare. O resultado  um retrato pico do mundo do hip-hop.

BLU-RAY
NO AUGE DA FAMA (TOP FIVE, ESTADOS UNIDOS, 2014. PARAMOUNT)
 Criado na comdia stand-up, Chris Rock  um" dos expoentes do gnero  ferino, atilado, implacvel, vertiginosamente gil e profundamente observador. Essas so algumas das qualidades que ele traz para seu terceiro trabalho como ator/diretor, no qual interpreta Andre Allen, um personagem tpico do firmamento hollywoodiano: o astro da comdia que quer se provar como ator "srio". Conhecido por uma franquia de filmes idiotices mas de bilheteria estrondosa nos quais faz um urso policial, Allen vai lanar,  noite, um drama de fracasso j anunciado, sobre a revoluo dos escravos no Haiti; na manh seguinte, vai se casar com uma estrela de reality show. Durante todo o dia, at a madrugada, vai andar por Nova York conversando com Chelsea Brown (Rosrio Dawson), uma reprter franca que chama todos os blefes de Allen e o obriga a abrir suas cartas na mesa. Se o segundo filme de Rock, Acho que Amo Minha Mulher, era uma homenagem declarada ao cinema do francs Eric Rohmer, este aqui se inspira no Woody Allen de Manhattan  e faz jus  fonte.

LIVROS
O LTIMO POLICIAL, DE BEN H. WINTERS (TRADUO DE RYTA VINAGRE; ROCCO; 320 PGINAS; 34,50 REAIS)
 Um agente de seguros aparece morto em uma lanchonete abandonada. Na aparncia, enforcou-se  um mtodo de suicdio comum na cidade de Concord, no Estado americano de New Hampshire. O policial Hank Palace, no entanto, acredita que pode ter sido um assassinato. At aqui, O ltimo Policial  o primeiro livro de uma trilogia protagonizada por Palace  segue um esquema corriqueiro nas histrias detetivescas. Mas h um enorme complicador para o trabalho do detetive: o mundo est para acabar. Os astrnomos detectaram um asteroide de 7 quilmetros que se encaminha inelutavelmente para a Terra  e deve obliterar toda a vida do planeta. Que diferena faz, ento, deixar um assassinato sem resoluo? Toda a diferena para o jovem investigador. Enfrentando a compreensvel indiferena de todos os seus colegas, Palace quer resolver esse caso. Ben Winters era conhecido por uma divertida adaptao de um clssico de Jane Austen ao universo do horror B: Razo e Sensibilidade e Monstros Marinhos. Neste romance, ele mistura policial noir e fico cientfica apocalptica.

CANAD, DE RICHARD FORD (TRADUO DE MAURO PINHEIRO; ESTAO LIBERDADE; 456 PGINAS; 59 REAIS)
 Consagrado sobretudo por Independncia, de 1995  romance que acumulou os prestigiosos prmios Pulitzer e Pen/Faulkner , Richard Ford, 71 anos,  um realista da estirpe de William Faulkner e um cronista da vida americana como John Updike. Seus personagens so em geral figuras deslocadas, lutando para firmar p em mundos sociais que guardam a aparncia de estabilidade mas so sempre cambiantes. Assim  Great Falis, cidade do Estado de Montana onde o jovem Dell Parsons vive, em 1960, com a irm gmea e os pais.  o prprio Dell que, j em idade madura, narra a histria. H afeto no seu retrato da famlia, mas no uma idealizao  o leitor j  avisado, nas primeiras frases do livro, de que um desastre vai se abater sobre os Parsons: "Para comear, vou contar o assalto que meus pais cometeram. Em seguida, os assassinatos que aconteceram mais tarde". Os pais de Dell so presos pelo assalto ao banco, e esse evento precipita o garoto em uma vida errante, na qual ele vai parar no Canad do ttulo. Este stimo romance de Ford confirma o americano como um mestre de seu ofcio.

DISCO
KINTSUGI, DEATH CAB FOR CUTIE (ATLANTIC)
 Grupo de primeira linha do rock indie americano, o Death Cab for Cutie sempre foi um projeto individual de Benjamin Gibbard, guitarrista, vocalista e compositor da banda. Os demais msicos apenas orbitavam  sua volta  com a exceo substantiva do guitarrista e produtor Christopher Walla. Pois bem: Walla ainda consta dos crditos de Kintsugi, o oitavo disco da banda, mas desligou-se de fato do Death Cab for Cutie. No foi a nica separao na vida de Gibbard: ele tambm se divorciou da atriz Zooey Deschanel, em 2011. O senso de perda est presente em todas as faixas do novo lbum  o que no  uma novidade radical: o trabalho de Gibbard sempre teve uma nota melanclica.  difcil no pensar em Zooey quando Gibbard pergunta em No Room in Frame, a faixa que abre o disco: "Eu estava atrapalhando quando as cmeras se viraram para encarar voc?". A vaidosa obsesso por cmeras ressurge na msica final, a tristonha Binary Sea, e em Black Sun, uma das melhores canes de Kintsugi, em que Gibbard parece estar novamente falando da ex: "Como pode algo to belo ser to cruel?". 


6#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
2- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
3- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE 
4- Minha Vida Fora de Srie  3 Temporada. Paula Pimenta. GUTENBERG 
5- Nmero Zero. Umberto Eco. RECORD
6- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA 
7- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE 
8- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
9- A Rainha Vermelha. Victoria Aveyard. SEGUINTE
10- A Guerra dos Tronos. George R.R. Martin. LEYA BRASIL 

NO FICO
1- S por Hoje e para Sempre. Renato Russo. COMPANHIA DAS LETRAS
2- Abilio. Christine Correa. PRIMEIRA PESSOA
3- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS 
5- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
6- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS 
7- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO
8- O Papai  Pop. Marcos Piangers. BELAS LETRAS
9- Sempre em Movimento. Oliver Sacks. COMPANHIA DAS LETRAS
10- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- No Se Iluda, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
2- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
4- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE 
5- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
6- Amar e Ser Livre. Sri Prem Baba. AGIR
7- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
8- Gerao de Valor. Flvio Augusto d Silva. SEXTANTE 
9- Quem Me Roubou de Mim? Padre Fbio de Melo. PLANETA
10- O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA 


6#6 J.R. GUZZO  VELRIO EM CMERA LENTA
     Jos Dirceu fecha enfim o seu ciclo na paisagem pblica brasileira. Acaba onde comeou: numa priso. Em outubro de 1968, aos 22 anos de idade, entrou em cena ao ser preso num congresso clandestino de estudantes no interior de So Paulo. Na semana passada, apanhado nessa prodigiosa chacina que a corrupo criou dentro e em torno da Petrobras, estava de volta  cadeia, desta vez num xadrez da Polcia Federal de Curitiba, para o ato final de sua jornada. H uma gelada melancolia nisso tudo. Entre um momento e outro, Dirceu investiu 47 anos na luta sem descanso pelo poder. Chegou l, depois de esforos maiores do que prometia a fora humana, em 2003, quando o Partido dos Trabalhadores emergiu como a principal fora poltica do Brasil  mas ao chegar conseguiu ficar apenas dois curtssimos anos, lanado ao mar pelos companheiros nas primeiras trovoadas do que viria a ser o mensalo. Quando comeou a subida, Jos Dirceu era visto como um heri pela esquerda brasileira; sequestraram um embaixador dos Estados Unidos, nada menos que isso, para resgat-lo da priso do governo militar onde estava em setembro de 1969 e permitir assim sua ida para o exlio em Cuba. Agora, ao ser preso na Operao Lava-Jato, querem mais  que ele fique l mesmo na cadeia. Ao entrar no prdio da Polcia Federal em Curitiba, tudo a que teve direito foi uma vaia de algumas dezenas de manifestantes. No apareceu um nico amigo, militante ou movimento social para lhe dar apoio; no dia de sua priso o "exrcito do MST", que ainda outro dia o ex-presidente Lula ameaava botar na rua para defender "o projeto do PT", estava empenhado em gritar "fora Levy" numa baderna no Ministrio da Fazenda, em Braslia.  o que temos. 
      uma dessas ciladas da vida o fato de que os problemas mais srios de Dirceu com o sistema carcerrio brasileiro no aconteceram durante o perodo sem lei em que a justia era feita dentro dos quartis; so de hoje, em pleno vigor das liberdades, do direito de defesa e do reinado do PT. Dirceu ficou preso pouco menos de onze meses no governo militar que tanto combateu. Agora, no governo em que tanto mandou, j est cumprindo pena h mais de vinte, desde 15 de novembro de 2013; ficou preso at 4 de novembro de 2014 em Braslia, na Penitenciria da Papuda e em regime semiaberto, depois em sua casa, e no momento est de volta  priso fechada. H comparaes ainda mais tristes. No passado Dirceu esteve preso por ser "um combatente da resistncia contra a ditadura". Hoje est na cadeia por conta da "Operao Pixuleco", cortesia do companheiro Joo Vaccari Neto   a isso que foi reduzido. At pouco antes de ir para a Papuda, recebia em seu escritrio o ex-presidente da Petrobras Srgio Gabrielli e era um dos colaboradores favoritos entre os magnatas da empreitagem de obras pblicas. Quando ele foi despachado para a PF de Curitiba, os peixes gordos tinham sumido por completo do seu pesqueiro. "Libertar Dirceu" de sua primeira priso foi um ponto de honra para toda uma gerao da esquerda nacional. Na semana passada no era nada: no deu para levantar o brao esquerdo chamando os companheiros " luta", como fizera menos de dois anos atrs, porque no havia em volta nenhum companheiro disposto a lutar por ele nem a gritar "guerreiro do povo brasileiro". Mais que tudo, talvez, Dirceu viu os chefes petistas, que o bajularam durante anos, renunciarem s regras mais elementares da decncia comum neste seu momento de infortnio. Lula ficou absolutamente mudo. O Palcio do Planalto no disse sequer uma palavra  numa reunio feita ali no dia da priso, segundo o ministro da Defesa, o assunto "no foi tratado". Com Dirceu j preso, o PT conseguiu escrever duas declaraes oficiais inteirinhas sem citar uma nica vez o seu nome. 
     O fim da linha para Jos Dirceu chega num momento de terremoto poltico em formao acelerada. Dilma Rousseff j no governa  deixou o poder por abandono de cargo, j h bom tempo, por capitular diante da corrupo descontrolada que destruiu seu governo e por sua inpcia terminal para a funo de governar qualquer coisa. Lula no  mais que uma sombra assustada, que h muito se preocupa apenas com a prpria sobrevivncia. O PT, enfim, solta notas com atividade cerebral prxima ao zero, nas quais transforma em bomba terrorista um buscap de So Joo jogado contra o Instituto Lula, fala em "avano da direita" e no consegue mostrar nenhuma ideia coerente em sua defesa. Junto com a despedida de Dirceu,  o velrio em cmera lenta de um partido e de um governo que optaram pelo suicdio. 

